OPINIÃO

Amizade humana ou espectáculo (societário/digital)?

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Fala-se muito hoje em “amizade”, nas redes sociais, nas academias ou mesmo em conversas entre amigos. Mas, será que entendemos, de facto, o que significa ser amigo? Ao que se tornou tradicional, clicar em “adicionar” ou “seguir” tornou-se um gesto banal de amizade. Os clássicos da filosofia, desde Platão à Tomás de Aquino, mostram que amizade é algo profundo. Ao revisitar estas vozes antigas, percebemos que continuamos a ter muito a aprender. Quem se importa com isso?

Como entendemos, Platão foi dos primeiros a pensar a amizade como mais do que companhia agradável. Ele sugere que o amigo é aquele que nos leva para além do imediato, conduzindo-nos, constantemente, na busca do Belo e do Bem. Entendemos que o amigo verdadeiro não é aquele que confirma o que já somos, mas quem nos ajuda a ser melhores, faz-nos descobrir o que está além de nós, descobrir novas faculdades e possibilidades em nós mesmos.

Aristóteles foi ainda mais longe. Na obra que ele escrevera para seu filho, “Ética a Nicômaco”, ele organiza as amizades em três tipos: por utilidade, por prazer e por virtude. Aristóteles lembrou o seu filho que, “a forma mais alta de amizade nasce quando valorizamos o outro pelo que ele é em si mesmo”. Essa é rara, exige tempo, paciência, convivência, tolerância, curiosidade e carácter, mas não só. Para ele, a amizade conduz à vida feliz. Aristóteles ensina-nos, hoje, que a amizade é principal forma de organização social e política, do zoom politikon, por isso, política par excelance. Ou seja, que nenhuma cidade ou nenhum país pode ser unido se não haver amizade entre os cidadãos.

Numa época em que a polarização mina a convivência social, de forma ampla e preocupante, é urgente recuperar a ideia de que a amizade é também um cimento social e político. Para Cícero, filósofo romano, só os que são bons podem ser verdadeiros amigos, porque amizade é inseparável é a virtude do compromisso moral e sociopolítico. A lição de Cícero é clara para nós, sem virtude, não há verdadeira amizade.

Olhando para o nosso dia-a-dia, há que questionar: será que não banalizamos a amizade? Será que não reduzimo-la a trocas superficiais, utilitárias ou prazerosas? A maior prova de banalização da amizade é o avesso pela vida humana, que inclui guerras, terrorismo, corrupção, nyonguismo etc. Os nossos filósofos lembram-nos que amizade é uma virtude, é um vínculo político, é uma busca espiritual, é, sobretudo, um compromisso com a vida social.

Hoje, num tempo de relações descartáveis e de amizades “digitais” que se apagam com um clique, pensarmos em conjunto sobre a amizade é quase um acto de resistência. Só somos amigos quando aprendemos a ser verdadeiros amigos.

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