OPINIÃO

Agricultura como Pilar do “Boom” Económico em Moçambique

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Moçambique possui, por natureza, uma das mais promissoras bases para o crescimento económico sustentável: a terra fértil, o clima favorável e uma população com tradição agrícola. No entanto, paradoxalmente, continua a importar produtos que poderiam ser produzidos internamente em larga escala. Se queremos alcançar estabilidade económica e um verdadeiro “boom” de desenvolvimento, o centralismo das políticas públicas deve estar, sem hesitação, na agricultura.

Mas não basta reconhecer o potencial — é imperativo agir com visão estratégica e coragem política.

A agricultura moçambicana continua refém de limitações estruturais que travam o seu crescimento. A ausência de linhas de financiamento robustas e acessíveis para o sector é um dos principais entraves. O produtor, sobretudo aquele com ambição de escalar a produção, encontra enormes dificuldades em aceder ao crédito, enfrentando taxas elevadas, exigências desajustadas e prazos incompatíveis com o ciclo agrícola. Neste contexto, a criação de um Banco Agrícola não deve ser vista como uma opção, mas como uma necessidade urgente e estruturante. Um banco orientado especificamente para o sector poderia garantir financiamento adequado, seguro agrícola e apoio técnico, criando as bases para uma agricultura moderna e competitiva.

Outro desafio crítico reside na falta de uma política clara de ordenamento e protecção de terras agrícolas. Assistimos, com frequência, à privatização de extensas áreas sob o pretexto de investimento, que acabam por permanecer improdutivas. Ao mesmo tempo, vastas extensões férteis permanecem subaproveitadas ou abandonadas. Esta realidade revela uma falha grave na gestão estratégica dos recursos nacionais. A terra deve ser tratada como activo produtivo e não como reserva especulativa.

A limitação da agricultura industrial de grande escala é outro ponto que merece uma crítica frontal. Sem produção em escala, Moçambique continuará incapaz de competir no mercado internacional, limitando-se à subsistência e à informalidade. É fundamental incentivar grandes projectos agrícolas, com integração de pequenos produtores, mecanização, tecnologia e cadeias de valor bem estruturadas. Produzir mais e melhor deve ser um desígnio nacional.

As recentes chuvas, que em muitos casos são vistas apenas como um fenómeno climático, devem ser encaradas como uma oportunidade estratégica. O Governo deve estar preparado para capitalizar este recurso natural, investindo na reabilitação de regadios existentes e na criação de novos sistemas de irrigação orientados para a agricultura industrial. A água, quando bem gerida, transforma-se em riqueza.

Experiências internacionais demonstram que é possível transformar a paisagem rural em motor económico. Países como a França fizeram da agricultura um elemento central da sua identidade económica, onde cada extensão de terra ao longo das estradas representa produtividade, organização e visão de futuro. Moçambique pode — e deve — aprender com esses modelos, adaptando-os à sua realidade.

Chegou o momento de romper com a dependência excessiva de parceiros externos para garantir a segurança alimentar e o crescimento económico. O país possui recursos suficientes para trilhar um caminho próprio, baseado na produção interna, na valorização da terra e na criação de riqueza nacional.

Chega de olhar para campos férteis como espaços vazios. Chega de aceitar a estagnação produtiva. Chega de adiar decisões estruturantes.

A agricultura não é apenas um sector — é a base de uma economia resiliente, inclusiva e soberana.

 

 

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