OPINIÃO

Afrofobia na África do Sul e o Silêncio da União Africana

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A manifestação da xenofobia na África do Sul, o que prefiro designar por “afrofobia”, pois as vítimas são africanos, incluindo moçambicanos, é preocupante e deplorável. A justificação é de que muitos sul-africanos enfrentam problemas de emprego e carestia de vida por conta dos imigrantes africanos, o que permite a construção de estereótipos negativos. Por conta disso, os imigrantes africanos tornam-se alvos ou presas a abater, o que alimenta a violência contra os mesmos.
O fenómeno não nasce do nada. Ele emerge de um tecido social pressionado por desigualdades profundas, desemprego persistente e uma promessa pós-apartheid que nunca se cumpriu plenamente. A transição política trouxe liberdade formal, mas não resolveu as bases materiais das desigualdades e exclusões sociais.
Há aqui uma dimensão mais profunda: a fragmentação da identidade africana e, sobretudo, a apregoada integridade pela União Africana. Em teoria, existe um sentimento de pertença continental, mas, na prática, ele é frágil. A ideia de “nós africanos” dissolve-se rapidamente, pois o que se vê nas ruas sul-africanas é também uma crise de identidade social e, sobretudo, o silêncio dos governantes africanos (da União Africana), exceptuando os da Nigéria, Botsuana e Tanzânia, que reagiram com o fecho de fronteiras, suspensão de relações e pressão diplomática.
Durante o apartheid, países africanos acolheram, protegeram e apoiaram sul-africanos em exílio. Hoje, esse passado é lembrado como cobrança moral. Líderes como Samia Suluhu Hassan não estão apenas a criticar, mas também a expor uma quebra de solidariedade histórica.
Moçambique está em silêncio. Parece um silêncio estratégico. O país é fornecedor de energia para a África do Sul, um elemento essencial numa economia já pressionada. O silêncio moçambicano pode ser interpretado como cautela estratégica ou como ausência de posicionamento, num momento em que cidadãos moçambicanos são directamente afectados.
A África que tem denunciado o racismo global acaba por expor divisões internas que fragilizam a sua posição moral no debate internacional. Parece que a União Africana é uma instituição que mais promete do que integra. Apesar de se falar de integração, livre circulação e unidade, quando a crise exige uma acção concreta, o silêncio ou a lentidão dominam. Daí a questão: a União Africana é um instrumento real de coesão ou apenas um palco diplomático ou folclórico?
Num mundo já tencionado por disputas energéticas e controlo de rotas estratégicas, a fragmentação africana só enfraquece o continente como um todo. É um teste à maturidade política de África. É a prova de fogo para saber se a solidariedade continental é real ou apenas retórica. E é, sobretudo, um lembrete desconfortável: quando um africano deixa de ser visto como irmão, o projecto de unidade já começa a falhar.
A resposta das autoridades e da sociedade é fundamental para reduzir esses conflitos. Quando não há acções firmes, os ataques podem repetir-se e até aumentar. É importante promover diálogo, educação e políticas de inclusão para todos. A afrofobia não é apenas rejeição do outro africano, mas reflexo de problemas sociais mais profundos que precisam ser enfrentados.
Neste diapasão, importa realçar que o problema não é apenas dos sul-africanos, mas também dos Estados africanos, que não criam condições laborais e de vida para muitos jovens, levando-os a migrar para a África do Sul. A afrofobia é algo abominável, mas, se os governos africanos criassem melhores condições para os seus cidadãos, não haveria necessidade de muitos procurarem aquele país em busca de melhores condições de vida.

 

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