SOCIEDADE
Académicos em Nampula exigem educação forte, combate à corrupção e revisão de currículos para quebrar ciclo de pobreza
Num encontro de auscultação promovido pelos deputados da FRELIMO em Nampula, académicos e especialistas em educação lançaram críticas duras e apontaram caminhos para o futuro de Moçambique. Wilson Nicaquela e Baptista Muchaibainde defenderam que a educação deve ser o verdadeiro pilar do desenvolvimento nacional, acima de slogans políticos e promessas falhadas.
Para os dois estudiosos, sem um sistema educativo robusto, coerente e livre de corrupção, o país continuará refém de ciclos de pobreza, violência e dependência externa. “Este país precisa desenvolver a partir da educação. Reproduzimos a ideia de que a agricultura é a base, mas nunca tivemos resultados concretos. Precisamos pensar diferente para termos resultados diferentes”, afirmou Nicaquela, questionando a Constituição da República no seu artigo 103, que coloca a agricultura como motor do desenvolvimento.
O académico lembrou programas como o ProSavana e a produção de jatrofa, que consumiram avultados recursos sem resultados práticos para a população. Denunciou ainda a massificação do ensino superior sem ganhos de qualidade: “Temos professores licenciados que fazem pior do que aqueles com nível médio há 10 ou 15 anos. Estamos a normalizar más práticas pedagógicas.”
Por seu turno, Baptista Muchaibainde apontou o dedo à corrupção enraizada no sector da educação. “O aluno entra a pagar, continua a pagar para terminar o curso e depois paga para ser enquadrado no Estado. Temos professores que não sabem ler nem escrever, mas estão no sistema”, criticou.
Muchaibainde denunciou ainda as condições precárias em que decorrem as aulas, com estudantes sentados debaixo de árvores e professores sobrecarregados e endividados, factores que, segundo disse, comprometem a formação de futuros quadros. Para o académico, é urgente rever os currículos e preparar técnicos capazes de responder às exigências do desenvolvimento nacional. “Já passaram mais de 30 anos desde a paz e continuamos sem técnicos de qualidade. Precisamos de currículos que formem engenheiros e quadros para servir o país”, sustentou.
No mesmo encontro, Nicaquela desafiou os deputados a assumirem compromissos claros com a população, para além de interesses partidários. “Qual é o vosso projecto pessoal como cidadãos para esta província e para Moçambique? Não basta seguir documentos. É preciso clareza de objectivos e compromisso real com o povo”, afirmou. Vânia Jacinto