OPINIÃO
Escrevo porque a escola onde estudei não tinha carteira, mas ensinou-me a pensar
Escrevo porque a memória ainda me pesa nos ombros. Porque, embora o tempo tenha passado, carrego comigo o chão poeirento onde me sentei para aprender a sonhar. Escrevo porque, apesar das dificuldades, houve um tempo em que a escola era feita de vontade e não de estruturas.
A escola onde estudei não tinha carteira. Tínhamos pedras, capulanas estendidas no chão, ou simplesmente o pó da terra como assento. Quando chovia, abrigávamo-nos debaixo de chapas de zinco, e quando fazia calor, suportávamos em silêncio. Mas aprendíamos. Com lápis emprestados, cadernos já gastos e, muitas vezes, o estômago vazio. Aprendíamos, sobretudo, a pensar.
Naquele espaço humilde, onde o tecto era apenas uma promessa de sombra e as paredes mal se aguentavam, aprendi que a maior riqueza da escola não são os edifícios, mas sim as ideias. Não tínhamos computadores, quadros interactivos ou bibliotecas. Tínhamos palavras. Palavras ditas por professores que, mesmo sem salário digno, entravam nas salas com a dignidade de quem cumpre uma missão.
Ensinavam-nos a ver o mundo além da aldeia, além da miséria. Falavam de Moçambique, de África, de liberdade. E nós, sentados no chão, éramos grandes. Crescíamos com cada história, cada pergunta, cada debate. A escola ensinou-me a pensar, e foi isso que salvou o que restava da esperança.
Hoje, olho à minha volta e vejo escolas com carteiras modernas, janelas envidraçadas e quadros digitais. Mas muitas vezes falta-lhes alma. Falta-lhes o essencial: ensinar a pensar. Formam-se repetidores, não pensadores. Treinam-se crianças para obedecer, não para questionar.
Por isso escrevo. Escrevo para recordar que não é a carteira que faz o aluno, nem o edifício que define a escola. Escrevo por respeito ao mestre que me ensinou sem ter sequer um giz inteiro. Escrevo por cada criança que ainda hoje se senta no chão, mas cuja mente voa mais alto do que os prédios de cimento e vidro.
Escrevo porque aprendi que pensar é o maior acto de resistência. E porque quem pensa, escreve mesmo que o tenha aprendido num chão de terra, sob um sol impiedoso.
A escola onde estudei não tinha carteira. Mas ensinou-me a pensar. E é por isso que escrevo.
Ser pobre não é defeito