OPINIÃO
Será desta que alguém trava a torneira do Estado?
Durante muito tempo, o Estado moçambicano cresceu como uma árvore sem poda. Ramos e mais ramos foram sendo acrescentados, serviços sobre serviços, estruturas duplicadas, funções que se cruzam e, muitas vezes, se anulam. No meio disso tudo, uma certeza: o dinheiro continuava a sair, todos os meses, todos os anos… como se fosse infinito.
A decisão recentemente assumida pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, de avançar com a revisão e reestruturação dos órgãos ao nível provincial, é um gesto político que rompe com uma tradição perigosa.
É preciso ter coragem para admitir que o Estado estava a gastar mal. Que havia serviços que pouco ou nada acrescentavam à vida do cidadão, mas que continuavam a consumir recursos preciosos. Que, enquanto o povo enfrentava hospitais sem medicamentos e escolas sem condições, o aparelho estatal mantinha estruturas que serviam mais a si próprias do que à população.
Durante anos, criou-se a ilusão de que mais instituições significavam melhor governação. Mas a realidade mostrou o contrário: mais burocracia, mais confusão de competências, mais despesas e, paradoxalmente, menos eficiência.
Cortar essa “gordura” não é fácil. Nunca é. Porque cada estrutura tem rostos, interesses, rotinas instaladas. Há quem perca conforto, quem perca espaço, quem resista. Mas governar não é agradar a todos; é tomar decisões que beneficiem a maioria, mesmo quando são incómodas para alguns.
E, desta vez, é justo reconhecer: há mérito na decisão.
Num país com tantos desafios sociais, continuar a sustentar estruturas desnecessárias seria um erro grave. Cada metical desperdiçado em serviços redundantes é um metical que falta numa sala de aula, numa maternidade, numa estrada. É dinheiro que poderia salvar vidas, melhorar oportunidades, reduzir desigualdades.
Esta reforma, se for levada a sério, pode representar uma mudança de mentalidade. Um sinal de que o Estado começa, finalmente, a olhar para si próprio com espírito crítico, disposto a corrigir excessos e a ajustar-se à realidade.
Reduzir o peso do Estado é um passo importante. Mas tornar o Estado útil, próximo e eficiente é a verdadeira meta.
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