SOCIEDADE
Politização da ONP trava valorização docente, afirma Baptista Muchaiabande
O analista moçambicano Baptista Muchaiabande considera que a Organização Nacional dos Professores (ONP) perdeu a sua missão original de defesa da classe ao deixar-se capturar pela política, o que compromete a valorização docente em Moçambique.
Falando ao Jornal Rigor, Baptista Muchaiabande sublinhou que a ONP deveria ser a voz activa na luta por melhores salários, condições de trabalho e dignidade profissional, mas perdeu força. “O sindicato deixou de defender os professores e atrelou-se ao partido. Quando se cola à política, esquece-se do objectivo da criação”, criticou.
Para o analista, essa situação enfraqueceu não apenas a ONP, mas também o próprio sector da educação, onde direitos legalmente reconhecidos acabam por ser tratados como favores. “Um subsídio funerário devia estar disponível de imediato, mas leva meses ou anos, e para acelerar o processo exige-se suborno. Isto mostra como a corrupção se normalizou e agrava o sofrimento das famílias”, apontou.
Muchaiabande sublinhou ainda que a má gestão se estende à nomeação de dirigentes por afinidades políticas e não por competência. “Não faz sentido termos contabilistas a dirigir assuntos pedagógicos. Precisamos de pessoas certas nos lugares certos e comprometidas com a causa nacional”, defendeu.
No entanto, o analista afirmou que a responsabilidade não cabe apenas à ONP ou ao Governo, mas também aos próprios professores. “Para eu ser respeitado, preciso valorizar-me primeiro. Se o professor vende notas, perde imediatamente o respeito do aluno. Quem se corrompe não pode exigir valorização”, observou.
Ele recordou que outras classes profissionais, como médicos e magistrados, têm mais impacto porque sabem impor a sua voz. “Quando os médicos paralisaram, o Governo reagiu imediatamente. Já os professores, porque não se valorizam, não têm a mesma força. Criaram condições para não serem respeitados”, exemplificou.
Muchaiabande concluiu que o caminho da valorização docente passa por dois pilares: uma ONP independente e firme, e uma classe que recupere a sua própria integridade. “O respeito começa dentro da própria categoria. Só quando os professores se valorizarem, poderão conquistar o reconhecimento que merecem”, afirmou. Assane Júnior
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