OPINIÃO
Pelos montes, pelos rios, pelo mar: A pátria que se canta e se interroga
Há palavras que parecem nascer com os próprios lugares. Quando se diz “pelos montes, pelos rios, pelo mar”, o coração do país reconhece o seu corpo: o dorso das montanhas, as veias dos rios, a respiração larga do Índico. É nessa geografia viva que Moçambique se escreve e se reescreve, não só com letras, mas com passos, com feridas, com esperanças. O hino nacional, que muitos repetem de cor, ainda precisa ser vivido com consciência. Cada verso tem peso. Cada estrofe é apelo. Cada pausa grita uma pergunta: como está a nossa pátria?
“Na memória de África e do mundo”, é assim que se abre o canto. E essa abertura já nos coloca num lugar de dignidade, mas também de vigilância. Estamos lembrados, sim, mas como estamos a honrar essa memória? Somos presença que inspira ou estatística que dói? A memória de África guarda-nos como povo que se levantou. Mas o presente exige mais que lembrança: exige coerência. Porque não basta ter lutado, é preciso continuar a lutar, agora contra o que nos divide, contra o que nos nega.
O hino fala de glória. Repete: “a glória do passado, a glória do passado”. E essa repetição insiste: não esqueçam. Mas a pergunta é: e o presente, é de glória também? Porque, se a pátria foi conquistada com coragem, deve ser gerida com justiça. O povo que resistiu às armas não pode ser derrotado agora pela fome, pela corrupção, pelo abandono. A glória verdadeira não está apenas nos livros de história, está no prato cheio, na escola com professor, no hospital que cura. E está na palavra que pode ser dita sem medo.
“Do Rovuma ao Maputo, do Índico ao Zumbo”, desenha-se no hino o contorno do país. Mas será que essa linha une mesmo? Há pontes entre esses extremos? Ou vivemos realidades tão diferentes que parece que somos vários países num só? Nos montes há vozes que o poder não escuta. Nos rios há mãos que pescam e ainda passam fome. E no mar, onde tudo devia ser abundância, há gente a vender o futuro por migalhas. É preciso que o hino seja verdade no chão, e não apenas no papel.
A bravura dos nossos heróis, “todos por um, desafiando canhões”, é lembrada com justiça. Mas será que, hoje, temos esse mesmo espírito colectivo? Ou deixámos que a indiferença tomasse o lugar da solidariedade? Há quem diga que o maior inimigo já não está do outro lado da fronteira, mas do lado de cá, no egoísmo, na desresponsabilização, na gestão opaca. E se é verdade que os canhões mudaram de forma, também é verdade que o povo segue firme, com menos armas, mas com a mesma esperança.
Quando cantamos “viva Moçambique, nossa terra gloriosa”, não estamos apenas a saudar a terra. Estamos a cobrar coerência. Gloriosa, sim mas para quem? Para quem tem voz? Para quem pode mandar? Ou também para quem luta sem aplauso, para quem sobrevive no anonimato? A terra só será de todos quando todos puderem viver com dignidade. E isso ainda não chegou. Falta estrada, falta energia, falta pão. Falta honestidade.
E chegamos ao verso: “a bandeira erguida com o suor dos heróis brilha gloriosamente nas mãos do povo”. Bonito, sem dúvida. Mas olhemos bem: quem segura hoje essa bandeira? Está mesmo nas mãos do povo? Ou já foi apropriada por interesses que não representam a maioria? A bandeira não pode ser refém. Deve ser escudo e promessa. O suor dos heróis não foi para enfeitar palácios, mas para garantir justiça nas praças, nas escolas, nos mercados.
Nos últimos versos, o hino invoca coragem: “que o povo unido do Rovuma ao Maputo nunca tema lutar contra as armas do inimigo”. Aqui está o grande desafio do nosso tempo. O inimigo agora não vem com uniforme, vem com silêncio, com mentiras bem vestidas, com promessas que não saem do papel. E o povo precisa voltar a unir-se, não para destruir, mas para reconstruir. A luta de hoje é contra a apatia, contra o medo, contra o conformismo que nos rouba a alma.
Pelos montes, pelos rios, pelo mar… ali está Moçambique, a crescer como pode, a resistir como sabe. Uma pátria que não precisa só de cânticos, mas de cuidados. Uma terra onde ainda brota esperança, mesmo quando chove pouco. Um país que continua a ser amado, não porque seja perfeito, mas porque é nosso. E merece mais.
O hino é espelho, é bússola, é grito. Que ele continue a lembrar-nos que a independência não é fim, é ponto de partida. E que, pelos montes, pelos rios e pelo mar, floresça uma pátria que trate bem de todos os seus filhos, sem excepção. E mais não disse!
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