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OPINIÃO

Os três impérios invisíveis

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Há quem analise a sociedade pelos indicadores económicos: crescimento do PIB, taxa de emprego, inflação, investimento estrangeiro. Eu, cada vez mais, olho para outros indicadores os que não aparecem nas estatísticas oficiais, mas dominam o quotidiano. São três impérios invisíveis que atravessam gerações e regimes políticos sem nunca declararem insolvência: a droga, o sexo transformado em negócio e a violência como método de afirmação.

Mas hoje quero propor outra leitura. Não como denúncia moralista, nem como discurso alarmista. Quero olhar para estes fenómenos como sintomas de um modelo social falhado.

A droga, por exemplo, não cresce sozinha. Ela prospera onde existe vazio de oportunidades, de afecto, de orientação. O traficante é apenas o último elo de uma cadeia que começa muito antes do jovem que termina a 12ª classe sem perspectivas, no diplomado que volta para casa dos pais porque o mercado não o absorve.

Basta olhar para a nossa própria realidade. Em cidades como Nampula, fala-se em desenvolvimento, em projectos estruturantes, em modernização urbana. Contudo, nos arredores, circulam substâncias perigosas em pequenas embalagens, vendidas como se fossem refrigerantes inofensivos. Jovens debilitados perambulam pelas ruas, olhos perdidos, futuros hipotecados por alguns meticais. O lucro de uns constrói-se sobre a destruição de muitos.

O mesmo acontece com o sexo convertido em negócio. Num contexto onde o sucesso é medido por aparência, ostentação e validação digital, o corpo transforma-se em capital. Não é apenas exploração directa nas ruas; é também a normalização da troca de favores por vantagens, a banalização da intimidade, a ideia de que tudo tem preço.

Não se trata de condenar escolhas individuais, mas de questionar o ambiente que empurra tantas jovens e também jovens rapazes  a ver no próprio corpo o único recurso disponível. Quando o acesso à educação de qualidade é desigual, quando o desemprego juvenil se prolonga, quando o luxo é exibido como meta universal, cria-se uma cultura onde a dignidade é negociável.

E depois surge a violência não apenas a física, mas a estrutural. A violência que está na desigualdade gritante, na indiferença perante o sofrimento alheio. A violência é, muitas vezes, a linguagem final de quem nunca foi ouvido.

Ela manifesta-se nas disputas territoriais do tráfico, nas agressões domésticas, nas brigas entre jovens, na brutalidade que explode por motivos aparentemente banais. Mas por trás de cada acto violento há uma história de negligência social.

Os três impérios invisíveis continuam firmes porque aprenderam a ler as nossas fragilidades. A grande questão é se nós, enquanto sociedade, teremos coragem de enfrentar as causas profundas que os alimentam.

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