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OPINIÃO

O tempo que escapa entre os balcões

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No dia 12 de Novembro de 2025, as horas tiveram modos curiosos de passar nos corredores do poder, e algumas vezes, até parecem rir da paciência alheia.
Nas Autoridades Tributárias de Nampula, testemunhei esse fenômeno com meus próprios olhos: um jovem parado, impaciente, enquanto a senhora à frente, entretida num bate-papo profundo sobre assuntos que o mundo poderia esperar, parecia viver em outro fuso horário.

As quatro funcionárias da recebedoria? Surdas seletivas, especialistas em ignorar olhares ansiosos, mas mestras em manipular o tempo próprio. E o relógio, esse coitado, continuava a andar, como se zombasse da nossa pressa.

Enquanto eu me preparava para preencher meu processo, uma gentileza inesperada se revelou: o segurança que me abordou, educadamente pedindo que eu não estacionasse na vaga do diretor, tornou-se meu guia não oficial. Foi ele quem me indicou por qual porta entrar, orientou com paciência e explicou o caminho correto para encaminhar meu processo. Um gesto simples, mas que brilhava como farol no mar de lentidão e descaso.

Às 15h17 ainda preenchia meu processo; às 15h27, quase no fim. Então percebi o ritual secreto da repartição: a corrida para o livro de ponto.Um espetáculo digno de plateia, assinar, fechar expediente e desaparecer, mesmo sabendo que ninguém tinha marcado presença antes das 07h30.O cumprimento do dever? Talvez fosse só uma metáfora perdida entre papéis e carimbos.

Gentilmente, perguntei à funcionária onde depositar o processo e o que não podia faltar. Respondeu, com ar de quem ensina segredo de Estado, e eu me perguntei, silenciosamente:
“O que celebramos aqui, afinal? Atendimento ou a arte de desaparecer?”

Enquanto isso, o jovem seguia ali, firme, olhando cada passo da burocracia como quem espera um milagre.E nós, cidadãos, continuamos tentando. Porque alguém precisa lembrar que o serviço público existe para servir, e não apenas para marcar ponto, trocar olhares de tédio e testar a paciência alheia.

No fim, saí dali com uma lição escondida entre papéis e relógios: o tempo escapa, mas a ironia permanece, e, por vezes, é a única poesia que sobrevive nos corredores do poder.

E, ecoando o velho professor Vasconcelos, lembrei-me da pergunta que Cortella tanto provocava:
“Qual é a tua obra?”

Talvez a resposta não esteja nas paredes do gabinete, nem no carimbo do expediente, mas no esforço de fazer o melhor, na condição que se tem e no lugar em que se está.
Porque, no fim, a verdadeira assinatura de cada um não está no livro de ponto, mas no sentido que dá ao próprio tempo.

 

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