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OPINIÃO

O Povo Moçambicano é que Deve Ser a Nossa Figura do Ano

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No final de cada ano, repete-se o ritual previsível onde escolhem-se figuras do ano, nomes sonantes, cargos altos e fotografias oficiais. Presidentes, ministros, dirigentes, empresários, líderes de ocasião. Todos disputam o pódio simbólico do reconhecimento. Mas há um erro profundo nesse exercício repetido porque nunca olhamos para quem realmente carregou o peso do ano inteiro nos ombros. Quase nunca escolhemos o povo.

Em Moçambique, se houver honestidade intelectual e coragem moral, não há outra escolha possível a figura do ano deve ser o povo moçambicano. Não um indivíduo isolado, não uma instituição, não uma fotografia. O povo. Esse coletivo cansado, resiliente, silencioso e, ainda assim, persistente.

Foi o povo que acordou cedo todos os dias, mesmo sem garantias. Foi o povo que enfrentou a carestia da vida, o aumento dos preços, a escassez disfarçada de normalidade. Foi o povo que suportou filas intermináveis, burocracias humilhantes, serviços públicos frágeis, promessas recicladas. Foi o povo que, apesar de tudo, continuou a viver.

Enquanto os discursos falavam de crescimento da economia, o povo contava moedas. Enquanto os relatórios celebravam números, o povo media a vida em pratos vazios e sonhos adiados. Enquanto alguns viajavam em carros confortáveis, o povo caminhava longas distâncias para trabalhar, estudar, vender, sobreviver.

A figura do ano não pode ser quem aparece apenas nos momentos de celebração. A figura do ano tem de ser quem esteve presente nos dias difíceis, nos meses duros, nas noites sem respostas. E esse alguém foi o povo.

O povo que perdeu familiares e não teve justiça.

O povo que viu filhos desistirem da escola por falta de condições.

O povo que trabalhou sem salário digno.

O povo que acreditou, mesmo quando tudo parecia conspirar contra a esperança.

Um povo que não teve palco, mas sustentou o espetáculo inteiro. Um povo que não teve microfone, mas carregou a narrativa real do país.

É preciso dizê-lo com clareza que Moçambique continua de pé não por causa das lideranças, mas apesar delas. Continua de pé porque o povo insiste. Porque o povo adapta-se. Porque o povo não desiste com facilidade, mesmo quando o cansaço já deveria ter vencido.

Ser a figura do ano não significa perfeição. Significa resistência. Significa continuar humano num sistema que frequentemente desumaniza.

O povo moçambicano não pediu medalhas. Pediu apenas condições mínimas para viver com respeito. Pediu saúde funcional, educação real, justiça que não escolhe lado, oportunidades que não dependam de sobrenome nem de cartão partidário. Pediu pouco. Recebeu menos. Ainda assim, seguiu em frente.

Se quisermos fazer um balanço honesto do ano, não devemos perguntar quem falou mais, mas quem suportou mais. Não quem prometeu, mas quem pagou o preço. Não quem governou, mas quem aguentou.

E nesse balanço, o veredito é claro que o povo foi o grande sobrevivente do ano.

Talvez um dia escolhamos uma figura do ano porque mudou estruturalmente a vida do povo. Até lá, sejamos justos: a única figura que nunca faltou, que nunca abandonou o país, que nunca desistiu completamente, foi o próprio povo.

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