OPINIÃO

O Porto das promessas e o prato vazio

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Nacala sempre foi a cidade do futuro, o porto que alimenta o interior, a baía que abraça o mundo. Mas hoje, o horizonte de quem acorda na “Cidade Alta” ou desce à “Baixa” não é feito de navios, mas de incertezas. Nas esquinas, o sussurro é um só: o silêncio do bolso de quem trabalha e não recebe.

A falta de salários tornou-se a trilha sonora de uma gestão que parece ter perdido a direção. O funcionário municipal, aquele que limpa a rua, que organiza a feira, que atende no guiché, que cobra nossos impostos pessoais, transformou-se num voluntário forçado Trabalha-se com a memória do último salário, as contas em casa não aceitam justificações verbais nem promessas de gabinete. E quando se organiza uma manifestação em protesto aos seus direitos previsto na lei do trabalho, são levados as celas alegando que são trabalhadores desonestos

Uma cidade não é feita de Betão ou asfalto; ela respira através dos seus homens e mulheres. Mas em Nacala, essa respiração está ofegante. Como exigir brilho e bom trabalho nos olhos de quem vê a dispensa vazia e os filhos passando fome? O desânimo instalou-se nos corredores das instituições municipais de nacala  como uma neblina espessa que não deixa o progresso passar.

O funcionário que antes chegava com o orgulho de servir o seu município, hoje arrasta os pés. O ânimo, esgotou-se na mesma proporção em que as dívidas cresceram. Há uma vontade que morre a cada final de mês sem depósito, uma prostração que paralisa o balcão de atendimento e atrasa a obra na rua.

Não é preguiça, é luto. O luto pelo valor do próprio trabalho. Quando o suor deixa de garantir o sustento, a vontade de fazer melhor dá lugar à mera sobrevivência. Nacala não melhora porque os seus motores humanos estão gripados pela falta de dignidade salarial. Uma gestão que ignora o moral das suas tropas é uma gestão que condena a cidade à estagnação, pois ninguém constrói um futuro brilhante com as mãos cansadas de esperar pelo que é seu por direito.

No meio deste deserto financeiro, surge a miragem, o anúncio de cartas de condução gratuitas. A ironia é cortante. Como se pretende oferecer o volante a quem não tem combustível no prato? É um presente estranho. Oferecer a habilitação para conduzir, quando a própria cidade parece estar sem travões, são mais de 3600 inscritos pra 100 vagas,  foram obrigados a pagar impostos, piorando a situação e caos dentro da instituição, funcionários sem salário e se pretende investir fora além de minimizar a situação dos trabalhadores que vem com as barrigas vazias e roncando.  uma má gestão que deixa buracos na estrada e no estômago dos seus servidores.

A gestão da cidade, outrora motivo de orgulho, hoje assemelha-se a um navio à deriva em plena baía. O lixo acumula-se, não só nas ruas, mas na confiança do munícipe. A política do “faz de conta” esbarrou na realidade nua e crua da sobrevivência.

Por isso, o calendário marcou o dia de hoje 26 de março para um grito que  vem se acumulando nas gargantas secas. As manifestações previstas não são sobre política partidária, são sobre dignidade. É a resposta de quem cansa de ouvir “amanhã” enquanto o hoje dói. Nacala, a cidade que nunca para, decidiu que, se o suor não é pago, a voz será ouvida.

Resta saber se, do alto dos gabinetes, o clamor das ruas terá a força de acordar quem gere. Porque uma carta de condução na mão, não substitui o pão na mesa. E uma cidade não se conduz com promessas de borla, mas com o respeito por quem a faz funcionar todos os dias. Nacala espera por horas, o porto será de vozes, e não apenas de águas.

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