OPINIÃO
O Pão Amargo da Burocracia
Dizem que o tempo é ouro, mas na realidade moçambicana e em tantas outras sociedades ele é devorado, triturado e engolido pela burocracia. Não é exagero afirmar: a burocracia virou o pão de cada dia. Não um pão macio, nutritivo, que alimenta a esperança, mas um pão duro, seco, amargo, que se mastiga com paciência e resignação, deixando um gosto de frustração e impotência na boca de quem tenta sobreviver.
Acorda-se cedo com a esperança de resolver um simples assunto: abrir uma conta bancária, requerer um documento de identificação, matricular um filho na escola. E lá está ela, impassível, exigindo formulários que se multiplicam como ervas daninhas, assinaturas que se perdem no meio de carimbos e protocolos, filas que se estendem como rios de paciência em vão. Cada passo dado parece exigir outro passo, cada papel entregue gera outro exigido, como se a vida fosse medida pelo número de autenticações que conseguimos acumular.
E é nesta rotina de pequenos obstáculos que a burocracia deixa sua marca mais profunda. O que deveria ser ágil, seguro e facilitador, transforma-se em entrave. O cidadão comum aprende cedo que a pressa não tem lugar nesse mundo de carimbos. A burocracia não respeita urgência, não cede a circunstâncias pessoais. Ela é rígida, impessoal, quase indiferente às histórias que se desenrolam atrás de cada fila. Aquele homem que precisa renovar a identidade para conseguir trabalhar; a mãe que espera meses para matricular o filho na escola; o empreendedor que vê o tempo escapar enquanto seu negócio é engolido por formulários todos são prisioneiros de uma lógica que parece existir para si mesma.
O mais paradoxal é que um simples pedido de autorização pode demorar semanas, meses, ou até anos. Protocolos se multiplicam, normas se sobrepõem, e ninguém mais sabe exatamente quem é responsável pelo quê. É um sistema que se retroalimenta: quanto mais se tenta resolver, mais se é confrontado com barreiras invisíveis.
Mas, talvez, o que mais incomode é o efeito silencioso que ela produz na vida das pessoas. A burocracia não mata; mas corrói sonhos. Há uma frustração que se acumula em pequenos gestos: o cidadão que desiste de um processo por cansaço, que adia um plano por medo de enfrentar filas intermináveis, que aprende a conviver com a demora como se fosse algo natural. E, ironicamente, aprendemos a aceitá-la como parte da vida o pão de cada dia que ninguém pediu, mas que todos comemos, diariamente.
Entre sorrisos e resignações porque quem tem recursos, dinheiro, contatos, conhecidos consegue atravessar esse labirinto mais rapidamente. Quem não tem, permanece à mercê do sistema, invisível, esperando.
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