OPINIÃO
O Jornalismo moçambicano e as tempestades da verdade
O jornalismo moçambicano vive, nos últimos tempos, um momento que exige profunda reflexão. Não apenas sobre o papel da imprensa na sociedade, mas também sobre os limites da ética, da responsabilidade e do poder. A recente polémica envolvendo o governador da província de Nampula, Eduardo Mariamo Abdula, e um jornalista correspondente de um órgão televisivo nacional voltou a colocar sobre a mesa um debate antigo, mas sempre actual: qual é o verdadeiro lugar do jornalismo numa democracia?
O caso tornou-se público depois da divulgação de acusações de parte a parte. De um lado, uma reportagem que levantava suspeitas sobre alegadas irregularidades relacionadas com a gestão de donativos destinados às vítimas de calamidades. Do outro, a reação do governador, que afirmou possuir mensagens nas quais o jornalista teria solicitado dinheiro antes da publicação da referida matéria. Segundo o próprio governante, essas mensagens seriam prova de uma tentativa de extorsão, situação que, se confirmada, seria incompatível com a prática ética do jornalismo.
Este episódio, independentemente do desfecho, expõe uma ferida sensível no jornalismo moçambicano. Por um lado, revela a fragilidade da relação entre o poder político e a imprensa. Por outro, levanta dúvidas sobre práticas que, quando existem, comprometem a confiança do público na informação.
Num país onde o acesso à informação ainda enfrenta obstáculos e onde muitos jornalistas trabalham em condições difíceis, a ética profissional torna-se o maior património da profissão. Um jornalista pode ter poucos recursos, pode trabalhar em ambientes hostis, pode até enfrentar pressões políticas, mas nunca pode negociar a verdade.
O perigo é duplo. Quando o poder político tenta descredibilizar jornalistas para fugir ao escrutínio público, a democracia enfraquece. Mas quando jornalistas utilizam a profissão para interesses pessoais, o próprio jornalismo perde a sua autoridade moral.
A verdade, porém, não pertence a um lado nem ao outro enquanto os factos não forem devidamente esclarecidos. E é precisamente aqui que reside a grande responsabilidade das instituições, das redacções e das organizações de classe: investigar com rigor, sem paixões políticas e sem julgamentos precipitados.
O jornalismo não pode ser tribunal de vinganças, nem instrumento de chantagem. Deve ser, acima de tudo, um espaço de busca da verdade.
Moçambique precisa de um jornalismo corajoso, mas também íntegro. Precisa de jornalistas que façam perguntas difíceis, mas que o façam com honestidade. Precisa de governantes que aceitem ser questionados, mas que também saibam distinguir crítica de perseguição.
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