SOCIEDADE
O dia em que o sistema decidiu descansar
Na Direcção de Identificação Civil de Angoche, o tempo não corre, ele se arrasta, tropeça, cansa e senta-se na beira da porta para pedir desculpas por não funcionar. As bichas são criaturas vivas: crescem, enroscam-se, fazem sombra e sonho, mas não andam. São filas que já perderam a fé no próprio destino.
E no meio dessa lentidão que parece poesia triste, existe a história de um bilhete que nunca nasceu. Não é história minha, nem tua, é de alguém que um dia levou o filho, um bebé de sete meses, para tratar o primeiro documento da sua vida. Sete meses de ternura, mas um valor de adulto: porque ali, bilhete de menor ou bilhete de gigante, tudo custa o mesmo. Pagou-se. Cumpriu-se. E no final, recebeu-se o “espera bilhete”, aquele papel que vive prometendo que um dia o verdadeiro vai chegar.
Só que o tempo previsto passou. Depois passou de novo. E continuou a passar, como passam as marés em Angoche: leves, mas inevitáveis. O bilhete, esse, nunca chegou. Pelo contrário, pediram para deixar o “espera bilhete” e voltar “quando o sistema estivesse bom”. Mas o sistema, coitado, vive doente, fragilizado, com crises crónicas. E cada ida era uma peregrinação à esperança.
Até que um dia, o sistema acordou disposto. Mas quem atendia não era a moça habitual, era um senhor. O tipo de servidor que atende como se estivesse a fazer favor, como se o utente fosse o culpado pela falência do Estado. Olhou, desdenhou, falou com dureza, como se a pessoa tivesse cometido o pecado mortal de desejar um simples bilhete de identidade. Ainda assim, o utente respirou fundo. Comentou com a colega. E ela, constrangida, sussurrou: “minhas sinceras desculpas… o meu chefe é muito estressado”.
Tudo bem. Desculpas aceitam-se. Mas resolvem? Nada. Seguiram-se dias prometidos, datas marcadas, esperanças alimentadas, e nenhum desfecho. Até que, num sopro de boa vontade, a técnica pediu que levassem a criança na segunda-feira. Havia sistema. Havia chance. Havia fé. Mas quando se chegou, a resposta foi: “estou ocupada, volte na quinta”.
Veio a quinta. E com ela o déjà vu do absurdo: “estou muito preenchida”. Perguntada sobre o que fazer, respondeu que não sabia, mas que estava ocupada, isso sim, era informação crucial.
E assim se vai vivendo em Angoche: o cidadão que cumpre não avança, o Estado que cobra não entrega, e o sistema que devia servir é que escolhe quando quer funcionar.
Depois há as filas intermináveis, serpentes humanas que enrolam dias, sonhos e paciência. Ninguém na fila sabe se será atendido. É preciso fé, fé absoluta. Reza-se para que a sorte toque no ombro do próximo e diga: “hoje é o teu dia”. Porque ali, meu amigo, o atendimento não é um direito, é quase um milagre.
E no fim de tudo, fica a pergunta que ecoa nos corredores quentes e humilhantes da burocracia:
quanto tempo custa ser cidadão num país onde o próprio sistema se recusa a reconhecer a nossa existência?
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