SOCIEDADE
Novas incursões dos machababos tiram a esperança dos camponeses no distrito de Chiúre, em Cabo Delgado
Padre Fonseca Kwiriwi, missionário Passionista, da diocese de Pemba, alerta que nova forma de incursões terroristas, caracterizada pela selecção prévia das vítimas e exigência de dinheiro aos camponeses, está a agravar a miséria nas aldeias de Cabo Delgado.
O sacerdote alertou que esta estratégia, além de semear o medo, agrava a miséria nas aldeias e fragiliza ainda mais a vida das comunidades que já se encontram em situação de pobreza.
Segundo o presbítero, os insurgentes entram em determinadas aldeias já com nomes de pessoas previamente identificadas para serem executadas.
“Isso pode significar que há ligações com pessoas das próprias aldeias, seja como informantes ou membros do grupo ou indivíduos que desistiram e passaram a ser perseguidos”, analisa o Padre Kwiriwi, que tem acompanhado de perto o sofrimento das populações através das notícias dos familiares, amigos e conhecidos que se encontram nas áreas atingifas pelo terrorismo.
Kwiriwi ainda observou que, em alguns casos, os atacantes sabem quais são os residentes que possuem algum dinheiro ou bens, o que revela conhecimento detalhado do terreno.
“Ao chegar, perguntam pela casa do A ou do B. Se encontram um camponês com algum montante de dinheiro, os insurgentes se apoderam. Quando não querem ferir, apenas intimidam e seguem a viagem. No entanto, o impacto psicológico é profundo”, descreveu o sacerdote.
Para o Pe. Kwiriwi, esta forma de actuação contribui negativamente para o desenvolvimento local.
“Arrancar dinheiro aos pobres camponeses aumenta a miséria, destrói a esperança e aprofunda o pânico. Ninguém sabe se os insurgentes estão infiltrados nas aldeias ou se os vizinhos colaboram com eles”, disse, acrescentando que este clima de desconfiança rouba a paz e esperança do povo.
Kwiriwi relatou que, em visitas recentes a aldeias afectadas, percebeu o nível de insegurança vivido pelas populações. “As pessoas vivem sem perspectivas. Em vez de prepararem as suas machambas, fazem-nas com medo, porque podem ser surpreendidas a qualquer momento. É um ambiente de insegurança permanente”, frisou.
O sacerdote defende que o Governo deve criar mecanismos de interação amigável com as populações para encontrar soluções sustentáveis. “É preciso actuar a curto, médio e longo prazo, garantindo apoio para a produção agrícola e para a sobrevivência das famílias que perderam alimentos na tentativa de fugir dos ataques”, recomendou.
Na sua visão, esta proximidade pode ajudar a identificar suspeitos, uma vez que alguns insurgentes vivem nas aldeias. “Numa conversa bem conduzida, os moradores podem levantar suspeitas sobre pessoas cuja forma de vida gera desconfiança. Mas para isso o povo tem de sentir a presença do Governo e confiar nas autoridades”, sublinhou.
Kwiriwi apelou ainda ao reforço das patrulhas militares e à criação de condições para que a população não se sinta abandonada. “É fundamental semear confiança, esperança e segurança. Só com presença efectiva do Estado será possível inverter a sensação de abandono e devolver dignidade às comunidades”, concluiu. Faizal Raimo
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