OPINIÃO
“Não fale Emakhuwa com o meu filho”
Foi num quintal de cimento liso, num desses bairros da cidade de Nampula onde os portões altos tentam esconder o que somos, que ouvi uma mãe dizer, sem piscar:
— Por favor, não fale Emakhuwa com o meu filho. Aqui em casa, só português.
O rapazinho devia ter uns seis anos. Rosto bonito, bochechas cheias, olhos que ainda perguntam tudo ao mundo. Estava sentado na esteira, a brincar com carrinhos de plástico e a repetir frases que tinha ouvido na televisão: “Você vai me pagar!”, “Saia da minha casa!”, “Não toque em mim!”, novelas mexicanas, brasileiras, e um sotaque que vinha de longe, como se a infância já viesse legendada.
A avó, que tinha vindo da zona de Nipilili, em Mogovolas sorriu com doçura e tentou puxar conversa em Emakhuwa. Mas a mãe cortou com frieza. Disse que essas línguas confundem a criança. Disse que, hoje em dia, quem quer vencer na vida tem que falar línguas internacionais. Disse, com orgulho, que o menino já sabe contar até dez em francês e recita o “Our Father” em inglês com sotaque de internato.
Fiquei ali, calado. Por pouco desistia da bênção que me tinham pedido fazer para os dois novos carros que compraram em Japão via online. Mas por dentro, gritava de raiva e dor.
Porque não era só uma mãe. Era uma geração inteira a romper com o que veio antes. A dizer que os ritos de iniciação são coisas atrasadas. Que os contos da fogueira não têm mais utilidade. Que as línguas dos avós são feias, complicadas, indesejadas. “Meu filho não vai ser matope. Vai ser internacional.” Como se o mundo começasse no aeroporto de Mavalane.
Foi por isso que Mwanja Bissali perdeu o emprego. Sim, Mwanja. Um jovem brilhante, nascido em Maputo, filho de pais macuas que se orgulhavam de o ter inscrito desde cedo em escolas privadas, onde o inglês valia mais que uma boa nota em Matemática e o francês era ensinado com pompa, como se fosse passaporte para o futuro.
Nunca o ensinaram a falar Emakhuwa, língua de suas origens ancestrais. Aliás, em casa, a língua era proibida, como uma praga.
Mwanja cresceu fluente em palavras estrangeiras. Sabia falar com expatriados, citava autores franceses, sabia escrever “saneamento básico” com sotaque técnico. Mas no dia em que foi destacado para Mecubúri, numa ONG que promovia o uso de latrinas melhoradas nas comunidades, bastaram três semanas para o contrato ser cortado. O seu curriculum Vitae impressionava a todos porque até Emakhuwa falava e escrevia fluentemente.
O motivo do fim do seu contrato? Não sabia dizer “latrina” na língua do povo. Não sabia pedir licença, nem agradecer, nem contar uma história para convencer. Não sabia chegar com humildade a uma aldeia e falar como irmão. Falava português difícil, com palavras compridas e ar de conferência. A comunidade ouvia e abanava a cabeça, mas não entendia. E ele também não entendia que não se pode promover saúde sem linguagem que abrace. Um ancião da aldeia que aprendeu português, como assimilado, era o único entre 50 participantres duma reunião comunitária quem perguntava e respondia.
Mwanja foi devolvido à cidade como se fosse uma encomenda mal endereçada. Voltou com o diploma, mas sem chão. Porque há coisas que o currículo não ensina.
E agora digam-me: quem é inferior?
É inferior quem fala Emakhuwa? Ou quem cresceu sem saber onde é que se enterra o umbigo? Quem vive com a boca cheia de palavras estrangeiras mas com o coração vazio de pertença?
Negar uma língua não é só negar um som, é rasgar um mapa. É arrancar raízes com as mãos. É ensinar a vergonha onde devia haver orgulho.
Dizer “não fale Emakhuwa com o meu filho” é o mesmo que dizer “não lhe mostre o caminho de casa”. E quando ele se perder, não digam que foi azar. Foi escolha.
Moçambique não será um país inteiro enquanto continuar a tratar as suas línguas como fardo, e não como herança.
Um dia, esse menino vai crescer. Vai ter de falar com alguém que não lê nem vê telenovela, nem entende francês. E vai precisar de uma palavra que não está nos manuais, mas que talvez estivesse nos lábios da avó, naquele dia na esteira. Mas já será tarde. Porque há silêncios que não se traduzem. E mais não disse!
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