SOCIEDADE
Mitano propõe viragem comunitária para travar doenças negligenciadas
Investigador da UniLúrio defende acção centrada nas pessoas, consultas locais e reforço da vigilância laboratorial
O Professor Doutor Fernando Mitano, docente da Universidade Lúrio e coordenador do Mestrado em Saúde Pública na Faculdade de Ciências de Saúde, propõe uma reorientação urgente das estratégias nacionais de combate à tuberculose (TB) e à lepra. Investigador das duas patologias desde 2012, Mitano alerta para o desfasamento entre políticas públicas e realidades comunitárias, situação que continua a alimentar números alarmantes.
“Muito embora a gente tenha um tratamento gratuito para a TB, haja medicamento, a doença ainda continua a ser um problema sério de saúde pública. E isto é do nosso interesse para fazer a pesquisa. Encontrar, portanto, as explicações que estão por detrás disso”, explica o investigador.
A falência do modelo actual
Apesar da aplicação do tratamento directamente observado (DOT), recomendado pela Organização Mundial da Saúde desde 1993, Moçambique continua entre os países com maior carga de TB no mundo. O país regista, anualmente, entre 150 a 160 mil casos.
“Essa estratégia tem cinco pilares: detecção de casos, tratamento directamente observado, disponibilidade regular de medicamentos, registo dos casos e comprometimento governamental. Mas mesmo com tudo isso, continuamos a falhar”, assinala Mitano.
“Aquilo que nós estamos a encontrar agora é que a população, no caso, alguma tem informação, sim, mas muitas vezes as informações não estão bem aclaradas. Para além disso, a questão da pobreza e das distâncias interfere no tratamento”, acrescenta.
Educação e pobreza: causas estruturais
Segundo o investigador, a TB afecta todos os grupos etários, mas tem raízes profundas nas condições de vida precárias.
“Nós todos aqui podemos ter o bacilo, mas não evoluímos por quê? Porque nos alimentamos bem. Já uma pessoa sem alimentação adequada, sem casa condigna, sem emprego, facilmente desenvolve a doença. A pobreza é um dos maiores factores de risco.”
“A doença, quando é bem medicada, em dois meses a pessoa começa a apresentar grandes melhorias. E aí muitos acham que estão curados e abandonam o tratamento, o que é um erro grave. Isso contribui para o aumento de casos e resistência aos medicamentos”, lamenta.
A lepra: o estigma invisível
Em relação à lepra, Mitano identifica outro tipo de obstáculo: o silêncio e o medo.
“A lepra, no princípio, não dói. Aparece com manchas e perda de sensibilidade. As pessoas não percebem que estão doentes. Só procuram ajuda quando surgem deformações — que já são irreversíveis. E aí vem o estigma, o abandono, a dependência total.”
A sua investigação sobre a lepra, realizada em parceria com instituições de Moçambique, Tanzânia, Etiópia e Países Baixos, incide nos distritos de Murrupula, Mogovolas e Meconta.
“A lepra é grave em Nampula. E no processo de identificação, encontramos outras doenças de pele também negligenciadas, como sarna e tungíase (matequenha), ligadas à pobreza extrema”, explica.
Consultas comunitárias e vigilância descentralizada
Para enfrentar o problema, Mitano sugere soluções de curto e longo prazo.
“A curto prazo, precisamos de mais promoção de saúde. As pessoas devem saber que uma tosse por mais de duas semanas, febres, perda de peso, são sinais de alerta. E devem ser acolhidas, tratadas com dignidade. A longo prazo, temos de investir em educação e na redução da pobreza.”
No caso da lepra, a proposta é clara:
“É importante fazer campanhas, consultas comunitárias de pele. Porque muitas pessoas têm vergonha de ir à unidade sanitária. Se a consulta for feita na comunidade, ganhamos tempo no diagnóstico e evitamos deformações.”
O papel da academia
Mitano, que já publicou artigos científicos indexados e colaborou com universidades internacionais como a de São Paulo, defende uma ciência aplicada à realidade.
“Estou 100% dedicado ao ensino e à pesquisa. A ciência não serve apenas para publicar artigos. Serve para transformar realidades. Os estudantes que oriento saem com essa missão.”
Além da TB e da lepra, o académico tem conduzido investigações sobre gravidez na adolescência.
“A gravidez precoce é um problema grave, sobretudo no norte do país. Envolve pobreza, falta de orientação, questões culturais e o uso de drogas. Apesar da lei que proíbe uniões prematuras, ela é, na minha opinião, uma lei morta”, critica.
Um apelo à acção
Mitano termina com um apelo directo às autoridades e à sociedade:
“O nosso país precisa de políticas baseadas em evidências, de mais investimento na saúde, e de um comprometimento verdadeiro. São doenças curáveis. Se todos quisermos, podemos livrar-nos delas.”
Vânia Jacinto e Redacção
-
SOCIEDADE7 meses atrásUniRovuma abre inscrições para exames de admissão 2026
-
SOCIEDADE2 anos atrásIsaura Nyusi é laureada por sua incansável ajuda aos mais necessitados e recebe título de Doutora
-
CULTURA2 anos atrásVictor Maquina faz sua estreia literária com “metamorfoses da terra”
-
DESPORTO2 anos atrásReviravolta no Campeonato Provincial de Futebol: Omhipithi FC é promovido ao segundo lugar após nova avaliação
-
OPINIÃO2 anos atrásO homem que só gostava de impala
-
POLÍTICA11 meses atrásGoverno de Nampula com nova cara: nove novos administradores e várias movimentações
-
ECONOMIA10 meses atrásGoverno elimina exclusividade na exportação de feijão bóer e impõe comercialização rural exclusiva para moçambicanos
-
OPINIÃO2 anos atrásDo viés Partidocrático à Democracia (Participativa)
