SOCIEDADE
Matadouro afunda-se no lixo, ruas transbordam de vendedores
Enquanto as ruas e avenidas da cidade de Nampula fervilham em disputas diárias entre vendedores, carros e peões, um dos maiores mercados da urbe, o 25 de Junho, conhecido como Matadouro, encontra-se longe de ser ocupado a 100%. O espaço está despovoado, coberto de lixo e marcado pela insegurança, tornando-se um contraste gritante com a pressão urbana exercida pelo comércio informal no centro da cidade.
Em visita ao local, o Rigor constatou um cenário de abandono, onde poucos comerciantes resistem, dividindo o espaço com resíduos sólidos espalhados entre antigas barracas vandalizadas no auge das manifestações populares.
Horácio Basílio, alfaiate no mercado, lamenta a ausência de condições básicas. “Se fores a olhar ao redor do mercado, o saneamento e o gerenciamento do lixo ficam por nossa conta. Não é das melhores situações, estamos apenas a nos ajeitar. O Município? Não sei. Só sei que do outro lado juntam lixo num muro, já formou um monte enorme”, disse.
Jonas Fabião, outro comerciante no mercado, recorda que o Município chegou a mobilizar pessoal de limpeza, mas a iniciativa não durou. “Havia senhoras que vinham limpar todas as manhãs, mas de repente deixaram de aparecer. Pelo menos aqui na zona de venda de calamidades, não entram mais. Do outro lado ainda limpam, mas aqui em baixo não”, lamentou.
O chefe-adjunto do mercado, Óscar Manuel Calavete, atribui a degradação à desocupação e à falta de policiamento. “Alguns jovens e adolescentes entram, estragam barracas para retirar chapas, barrotes, ferros e blocos e depois vendem”, explicou. Questionado sobre os proprietários das barracas destruídas, disse que o Município prometeu dialogar para trazê-los de volta, mas nunca avançou. “No governo anterior chamaram os proprietários para colaborar, mas a conversa não andou”, acrescentou.
O Rigor apurou ainda que no mercado do Matadouro existem bancas que nunca chegaram a ser abertas ao público, tendo sido apenas construídas e depois abandonadas à sua sorte. No passado, o Município de Nampula chegou a propor uma medida de expropriação, num processo que chegou a ser discutido ao nível da Assembleia Municipal. Na época, a proposta foi chumbada pelo MDM, que se encontrava de costas voltadas com o saudoso presidente Mahamudo Amurane. O objectivo era garantir a plena ocupação do espaço.

Centro urbano tomado pelo comércio informal: ruas transformadas em mercado a céu aberto, e barracas improvisadas
Paralelamente, nas artérias centrais da cidade, jovens comerciantes desafiam automóveis, motorizadas e peões, preferindo as ruas às bancas vazias do Matadouro. A proximidade com clientes e fornecedores é a principal razão apontada. “Não há emprego para jovens em Nampula, e os empregos que existem pagam entre 700 a 1500 meticais. Com esse valor não conseguimos sobreviver. Aqui estamos perto dos clientes e fornecedores. No Matadouro não dá, aquilo é mato. Estrangeiros e compradores estão aqui. Eu levanto stock rapidamente, no mercado não seria assim”, argumenta Lito Atumane, vendedor de chinelos na Rua dos Continuadores desde 2016.
Para Ramadan Paulo, comerciante de blusas e pastas femininas, a situação é arriscada, mas inevitável. “É perigoso vender aqui, mas não temos mercado. O Município vem às vezes e até pagamos senha, mas continuamos sem solução”, contou.
Já Essiaca Juma reconhece os riscos, mas valoriza a sobrevivência. “Negócio corre bem. O perigo corremos, mas cada coisa tem o seu destino. Se for para chegar, já chegou. O importante é sustentar a família”, afirmou. Ainda assim, manifesta vontade de mudar: “Gostaria de sair, mas aqui em Nampula não temos um lugar benéfico para todos nós.”
Entre o lixo e o abandono do Matadouro e a pressão caótica das ruas, o Conselho Municipal de Nampula enfrenta o dilema de conciliar ordem urbana e inclusão social. As tentativas de retirar vendedores das ruas têm alternado entre avanços e recuos, enquanto a disponibilização de espaços condignos continua a parecer uma miragem. José Luís
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