SOCIEDADE
Mais de cem mulheres e raparigas com fístula obstétrica beneficiam de cirurgias gratuitas em Nampula
Mais de cem mulheres e raparigas que sofrem de fístula obstétrica serão submetidas, ao longo desta semana, a cirurgias gratuitas no Hospital Central de Nampula. A iniciativa é da Focus Fístula, em parceria com a Direcção Provincial e os Serviços Provinciais de Saúde, com apoio da Fistula Foundation. O objectivo é devolver dignidade e reintegrar socialmente mulheres e raparigas que vivem há anos marcadas por esta condição.
Segundo Igor Vaz, representante da Focus Fístula, a fístula obstétrica é consequência da falta de assistência adequada ao parto. “As mulheres devem procurar dar à luz nas unidades sanitárias, onde há meios para prevenir complicações. Uma cesariana pode durar uma hora, enquanto a cirurgia de uma fístula pode demorar até oito horas”, explicou, sublinhando que a organização trabalha em estreita cooperação com o Ministério da Saúde.
Nesta campanha, três cirurgiões especialistas – de Madagáscar, Nigéria e Moçambique – juntaram-se para atender os casos mais urgentes. “Se os casos forem simples, conseguimos operar duas a três mulheres por dia, mas há situações complexas que exigem longas horas de cirurgia. Mais do que números, o que importa é garantir que as mulheres saiam curadas”, destacou Igor Vaz, recordando que, numa campanha anterior, foram operadas cem mulheres em apenas dez dias.

Equipa médica e representantes parceiros junto ao Bloco Operatório do Hospital Central de Nampula, onde decorre a campanha de cirurgias de fístula obstétrica.
Bwalya Magawa Chomba, directora do programa da Fistula Foundation, afirmou que a organização apoia tratamentos em mais de 35 países, incluindo Moçambique. “Quando tratamos uma mulher, mudamos a sua vida, a da sua família e até da comunidade. Aqui em Nampula, apoiamos com transporte, suprimentos médicos e acompanhamento até ao regresso às suas casas”, disse, agradecendo a parceria com a Focus Fístula e o Ministério da Saúde.
Apesar dos avanços, os especialistas alertam para o risco de recaídas quando não há cuidados adequados após a cirurgia. Muitas mulheres, ao regressarem às comunidades, são obrigadas a retomar esforços físicos ou relações sexuais precoces, comprometendo os resultados da operação. “Pedimos às famílias para respeitarem o tempo de recuperação destas mulheres, caso contrário todo o trabalho pode ser perdido”, advertiu Igor Vaz.
A esposa do governador de Nampula, Nazira Abdula, apelou à solidariedade comunitária, lembrando que a fístula não é apenas uma condição médica, mas também social. “Estas mulheres sofrem rejeição, isolamento e estigma. Em vez de afastá-las, devemos apoiá-las e encorajá-las a procurar tratamento. E acima de tudo, temos de prevenir, combatendo uniões prematuras e gravidezes precoces, que estão na origem de muitos destes casos”, afirmou.
Nazira Abdula acrescentou que a província deve criar condições para que estas cirurgias aconteçam regularmente, mesmo fora das campanhas especiais. “Queremos que mais mulheres e jovens tenham acesso a uma vida normal e saudável, sem depender apenas de missões humanitárias”, frisou.
A campanha em curso no Hospital Central de Nampula representa uma nova esperança para dezenas de mulheres que enfrentam, em silêncio, uma condição previsível e tratável. Mais do que operações cirúrgicas, trata-se de um esforço para devolver dignidade, auto-estima e reintegração social às mulheres e raparigas moçambicanas mais vulneráveis.
Recorde-se que numa das últimas campanhas, 170 mulheres procuraram tratamento e 100 foram operadas em apenas dez dias. Desta vez, espera-se atender ainda mais casos e aliviar o sofrimento causado pela fístula obstétrica. Redacção
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