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POLÍTICA

Filomena Mutoropa defende limites na criação de partidos políticos em Moçambique

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A dirigente política Filomena Mutoropa, secretária-geral do Partido Humanitário de Moçambique (PAHUMO), defende a criação de uma lei que limite a formação de novos partidos políticos, argumentando que a proliferação de siglas fragiliza a oposição, dispersa o voto e acaba por favorecer o partido no poder.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Rigor, a política — figura histórica da oposição em Nampula e uma das protagonistas do episódio de 2013, quando o seu nome foi omitido do boletim de voto nas eleições municipais ganhas por Mahamudo Amurane — afirma que Moçambique vive um ciclo de fragmentação política que mina qualquer possibilidade real de alternância.

“Enquanto não houver uma lei que limite o número de partidos, vamos continuar a ter muitos partidos a concorrer e os votos a dispersarem-se. No fim, quem ganha sempre é o partido no poder”, afirmou.

Segundo Mutoropa, o surgimento constante de novas formações políticas cria uma ilusão de mudança, mas, na prática, enfraquece as estruturas já existentes.

“As pessoas correm atrás da capulana nova. Pensam que aquele novo partido é que tem mais ideias e mais força, mas no fim é sempre o mesmo. Nós, partidos mais antigos, ficamos a perder seguidores e influência”, explicou.

Para a dirigente, a ausência de regras claras sobre a criação de partidos está na origem do caos político.

“Somos quantos para existir quase duzentos partidos num país como este? Isso não ajuda o país. Se houvesse dois, três, quatro ou cinco partidos fortes, a população podia unir-se. Mas assim estamos sempre a circular entre siglas e a perder força”, defendeu.

 “A política está adulterada”

Com mais de 14 anos de militância política, Filomena Mutoropa descreve um ambiente político degradado, marcado por agressividade, medo e perda de valores.

“A política hoje está adulterada. Já não tem significado. Há agressividade, as pessoas caçam-se como ratos. Isso não é política”, afirmou.

A dirigente compara o momento actual com os primeiros anos da independência, que, segundo ela, foram marcados por ética, coerência e compromisso com o povo.

“No tempo de Samora Machel, havia direcção, havia respeito, havia um sentido de país. Hoje está tudo confuso”, lamentou.

 Críticas duras ao Parlamento e à oposição

Mutoropa não poupou críticas aos partidos da oposição representados na Assembleia da República, acusando muitos deputados de se afastarem das comunidades.

“Nós, partidos da oposição que estamos no Parlamento, não conseguimos fazer nada pelas províncias. A maior parte só vai lá para comer. Para buscar regalias”, acusou.

Segundo a política, o verdadeiro papel dos partidos devia ser estar nos bairros, nas aldeias, nos hospitais e junto dos mais vulneráveis.

“Quando comecei na política, eu ia aos hospitais, visitava doentes, ajudava. Hoje muitos só querem o cargo, o dinheiro e a visibilidade”, afirmou.

Ela alertou ainda para o abandono das crianças órfãs, dos idosos e dos jovens desempregados, que, segundo ela, deixaram de ser prioridade dos partidos.

 Diálogo inclusivo pode ser uma oportunidade

Sobre o diálogo político inclusivo em curso no país, Filomena Mutoropa considera que o processo pode abrir uma porta para resgatar a política, desde que seja mais do que um ritual.

“O diálogo pode ser bom, mas tem de ser realmente inclusivo e trazer mudanças reais. Se for só para cumprir formalidades, a nova geração vai herdar um país fragmentado e desigual”, alertou.

Para a dirigente, sem reforma do sistema partidário, não haverá verdadeira democracia.

“Sem uma lei de limites, nunca haverá verdadeira mudança”, concluiu. Vânia Jacinto

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