SOCIEDADE
Falta de escola em Tulua empurra raparigas para uniões prematuras
A falta de uma escola básica na comunidade de Tulua, distrito de Muecate, província de Nampula, está a empurrar dezenas de raparigas para uniões prematuras, num cenário que ameaça hipotecar o futuro da infância e agravar a vulnerabilidade social da região.
O líder comunitário de segundo escalão, Orlando Manuel, denunciou nesta quarta-feira que muitas adolescentes abandonam os estudos após a 6.ª classe, devido à inexistência de uma escola que permita a continuidade da formação.
“Temos a escola EPC de Tulua, mas terminou na 6.ª classe. Antes tinha até a 7.ª, mas o governo retirou. Hoje, as crianças ficam em casa porque os pais não têm condições de as enviar para uma escola distante, e acabam submetidas a casamentos prematuros”, afirmou.
Segundo explicou, a longa distância até à escola secundária mais próxima impede muitas famílias de manterem os filhos a estudar. A situação afecta directamente o futuro das raparigas, que, sem alternativas, são empurradas para uniões forçadas em plena adolescência.
Para Orlando Manuel, apenas a criação urgente de uma escola básica poderá garantir o acesso à educação e reduzir a vulnerabilidade social da comunidade. “Estamos a pedir ao governo que olhe para Tulua e construa pelo menos uma escola básica. Só assim as nossas crianças terão oportunidade de continuar os estudos e sonhar com um futuro melhor”, disse.
O apelo do líder comunitário mistura-se com a angústia diária de muitas famílias. “As nossas crianças ficam sentadas em casa e acabam casadas”, lamentou, sublinhando que a falta de soluções concretas continua a hipotecar o direito à educação e à dignidade das raparigas.
Por outro lado, o líder relata que Tulua continua sem uma unidade sanitária, obrigando milhares de famílias a percorrer longas distâncias para aceder ao posto de saúde mais próximo. Esta ausência de assistência médica deixa a população vulnerável a doenças como diarreia e malária, que se repetem ciclicamente e afectam sobretudo crianças e mulheres.
Paralelamente, os efeitos da seca e do último ciclone devastaram as machambas locais, comprometendo a produção de mandioca e outros alimentos de subsistência. O resultado é uma crise alimentar que ameaça a segurança das famílias, já fragilizadas pela falta de serviços básicos, tornando Tulua um retrato vivo da precariedade no acesso à saúde e na luta pela sobrevivência. Assane Júnior
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