ECONOMIA
Em Nampula, mulheres continuam a enfrentar desigualdade no acesso ao emprego
Apesar dos esforços do Governo moçambicano para promover a igualdade de género, as mulheres em Nampula continuam a enfrentar sérias barreiras no acesso ao mercado de trabalho. Questões sociais, culturais e institucionais são apontadas como as principais causas da persistente desigualdade.
O Jornal Rigor ouviu várias mulheres que descreveram as dificuldades que enfrentam para encontrar emprego digno, sobretudo no sector formal. A maioria das entrevistadas está inserida no sector informal — onde predominam os baixos salários, a ausência de contratos e a falta de protecção social — ao passo que os homens continuam a dominar o sector formal, com acesso privilegiado a cargos de liderança e estabilidade laboral.
A escassez de políticas públicas específicas para a empregabilidade feminina e o acesso limitado à educação técnica e profissional agravam ainda mais o cenário. Mesmo mulheres com formação superior ou técnica relatam dificuldades em conseguir emprego ou ascender profissionalmente, frequentemente devido ao preconceito de género.
Fauzia Amisse, funcionária pública, afirma que a desigualdade de género é real e sentida no quotidiano:
“Ainda há, sim, desigualdade — não só em Nampula, mas em todo o país. As mulheres ainda são vistas como incapazes. Pensam que só os homens podem fazer determinadas tarefas, mas nós somos fortes, guerreiras, e capazes de muito mais do que imaginam.”
Fauzia relatou ainda um episódio de discriminação de que foi alvo ao candidatar-se a uma vaga de emprego:
“Fui rejeitada numa empresa, não quero citar o nome, mas foi constrangedor. Havia muitos candidatos, homens e mulheres. No fim, só os homens foram chamados. Acredito que muitas de nós éramos mais capacitadas, mas fomos excluídas por sermos mulheres. Não me deixei abater, porque sei do que sou capaz.”
Victorina José Fernando, estudante universitária com formação técnica em Agronomia, contou que não conseguiu emprego na sua área de formação e teve de buscar outras formas de sustento:
“Não consegui vaga na área agrária. Por isso, voltei a estudar e, ao mesmo tempo, empreendo. Faço vendas de cosméticos, tenho uma loja de costura com roupas infantis e acessórios de cetim, e também trabalho com decoração de eventos.”
A falta de oportunidades leva muitas mulheres a reinventarem-se, mas também levanta questões sobre o desperdício de talento e formação em áreas técnicas, onde a presença feminina ainda é marginal.
Para Inês Rocha, a chave para mudar esse cenário está na solidariedade feminina:
“Só as mulheres podem transformar esta realidade — contratando outras mulheres, apoiando quem tem filhos pequenos e enfrenta dificuldades para conciliar trabalho e maternidade. Precisamos acreditar mais no nosso próprio potencial.”
As vozes ouvidas em Nampula refletem um apelo colectivo por mais inclusão, criação de oportunidades, e políticas que valorizem o papel da mulher no desenvolvimento económico. Para muitas, o futuro passa não apenas pela acção do Estado, mas também por uma maior entreajuda entre mulheres. Vània Jacinto
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