SOCIEDADE
Docente Regulo critica abordagem do MEC às reprovações na 9.ª classe
O docente universitário e analista político Maurício Regulo manifestou preocupação com a forma como o Ministério da Educação e Cultura reagiu aos elevados índices de reprovação nos exames da 9.ª classe, considerando que o discurso oficial ignora problemas estruturais profundos do sistema educativo.
Em reacção às declarações do porta-voz do MEC, Silvestre Dava, que atribuiu as reprovações na 9.ª classe aos professores, alegando que estes não terão preparado adequadamente os alunos, numa actuação associada a situações de insatisfação no seio da classe docente, Regulo afirmou ter sentido “uma dor profunda”. O académico sublinhou que, enquanto professor universitário, lida diariamente com estudantes que chegam ao ensino superior sem dominar competências básicas, como a escrita do próprio nome, a conjugação de frases, técnicas elementares de leitura e cálculos matemáticos simples.
Para o docente, estas lacunas não surgem no final do ensino básico, mas resultam de um percurso escolar marcado por falhas acumuladas desde os primeiros anos. “É inadmissível ver uma criança frequentar a 3.ª, 4.ª, 5.ª e 6.ª classe sem saber ler e escrever”, afirmou, defendendo que o problema exige uma abordagem estrutural e não meramente circunstancial.
Embora reconheça que algumas reformas em curso no sector possam ter aspectos positivos, Regulo mostrou-se crítico em relação à meta anunciada de “não reprovar ninguém”. Na sua leitura, essa orientação transmite a ideia de progressão automática, mesmo para alunos que não dominam os conhecimentos essenciais, o que acaba por comprometer a qualidade do ensino e empurrar as dificuldades para níveis mais avançados.
O docente rejeita ainda a responsabilização exclusiva dos professores pelos maus resultados, defendendo que o debate deve incluir questões institucionais como currículos inadequados, infra-estruturas precárias, falta de salas de aula, escassez de material didáctico, turmas superlotadas e défice na contratação de docentes.
Para Regulo, o Ministério deve aprofundar a análise das causas das reprovações, afastando-se de leituras condicionadas pelo contexto político, e apostar num ensino mais focado na leitura, escrita e cálculo, como base para a melhoria efectiva da qualidade da educação no país.
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