POLÍTICA
Chilimile diz que construção do parlamento em Mocuba pode marcar viragem na descentralização, mas defende início imediato das obras
O analista político Marechal Manufredo Chilimile defende que a concretização da sede do parlamento em Mocuba pode marcar um ponto de viragem na descentralização e na justiça territorial em Moçambique, mas alerta: “O mais importante agora não é o Presidente da República dizer ‘vamos construir’, mas sim dizer ‘estamos hoje a lançar a primeira pedra para a construção de uma casa do povo’.”
Falando numa entrevista ao Jornal Rigor, Chilimile reagia à visita de trabalho do Presidente Daniel Chapo à província da Zambézia, onde voltou a reafirmar a promessa feita durante a campanha eleitoral de erguer uma cidadela parlamentar em Mocuba. Para o analista, a proposta é inovadora e pode garantir uma “distribuição equitativa das instituições públicas pelo país”, mas só será significativa se sair do plano retórico e entrar na fase prática da execução.
“Mocuba seria sede do parlamento; Nampula, da Procuradoria-Geral; Niassa, do Ministério da Defesa. Se distribuirmos os ministérios pelo país, estaremos a dar um sinal real de desenvolvimento equitativo e desconcentrado. Já é tempo de descentralizar não só as promessas, mas também o poder”, sustentou.
Apesar de reconhecer o simbolismo da promessa, Chilimile alerta para o custo elevado do projecto num contexto de fragilidade económica. “A educação teve um investimento de apenas 85 milhões num país onde o ensino e a saúde estão em ruínas. Será que temos condições para gastar, talvez, 2 mil milhões de meticais – ou dólares – num parlamento?”, questionou. E acrescentou: “Vamos precisar de construir também vivendas para os deputados. É importante discutir isto de forma séria e honesta.”
Na mesma linha, o analista lamentou que muitos políticos estejam mais interessados em comissões do que em soluções estruturantes. “Os nossos políticos são nhomguistas. Gostam de comer por fora. Não será surpresa se este projecto for mais uma oportunidade de enriquecimento ilícito”, alertou.
Chilimile foi mais longe, sugerindo que a verdadeira aposta estratégica para a Zambézia seria a instalação do Ministério da Agricultura na província. “A Zambézia é um mosaico de terras férteis. Se o ministério estivesse aqui, isso estimularia o aproveitamento das riquezas locais, promoveria o autoemprego e retiraria muitos jovens da marginalização”, argumentou.
Por fim, apelou a uma governação mais inclusiva e baseada no conhecimento. “Qualquer comissão política que se preze deve consultar académicos, intelectuais e especialistas. A política precisa reencontrar o cidadão comum: o professor, o médico, o agricultor. Só assim construiremos um Moçambique justo e livre.” Redacção
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