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OPINIÃO

Até quando o cabelo do preto continuará a incomodar o outro preto?

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Moçambique continua a carregar o peso das suas próprias correntes, não as impostas pelo colonialismo, mas aquelas forjadas nas oficinas do preconceito interno. A notícia vinda do Hospital Central de Nampula é, no mínimo, vergonhosa. Um trabalhador negro, num país maioritariamente negro, impedido de receber o seu uniforme de trabalho… por causa do cabelo. Sim, leu bem. Por causa do cabelo.

Carlitos Carlos, agente de serviço no sector de oftalmologia, foi simplesmente retirado da fila de distribuição de fardamento. Não por indisciplina. Não por mau desempenho. Mas porque o seu penteado não agradou à directora de enfermagem. Uma mulher negra, a julgar por outros negros, numa instituição pública, alegadamente preocupada com “estética”, mas de estética pouco humana e menos ainda institucional.

O mais revoltante é perceber que este tipo de discriminação não parte de um estrangeiro. Não vem de um sistema colonial retrógrado. Vem de nós, os próprios. Somos os nossos próprios algozes. Ainda temos negros a dizer aos outros negros como devem parecer para serem “aceites”, como se o cabelo natural africano fosse um erro que precisa ser domado ou escondido.

Não há um documento, uma circular, uma norma interna que diga que o estilo de cabelo de Carlitos viola regras. Apenas o “achismo” da chefia, que confundiu gosto pessoal com critério profissional. Como se a função do cabelo fosse salvar vidas. Como se a competência se medisse pela forma como se penteia a cabeça. Será que a prioridade de um hospital não devia ser a saúde e bem-estar dos pacientes, a eficiência dos seus profissionais, e não penteados?

Enquanto se criam barreiras por motivos absurdos como este, outros problemas graves passam impunes: os corredores do hospital continuam cheios, os doentes morrem por falta de medicamentos, os salários chegam tarde e mal, e o pagamento das horas extras é uma miragem. Sobre isso, o silêncio reina. Mas quando é cabelo, ah! Aí a máquina do julgamento liga-se, e os pequenos poderes mostram a sua força.

Este caso mostra o racismo camuflado que habita entre nós. O preconceito que nos ensinaram e que, tristemente, aprendemos bem, tanto que hoje o aplicamos uns aos outros com uma eficácia cruel. Já é tempo de nos libertarmos, não apenas das correntes externas, mas das internas. Porque enquanto um preto se incomodar com o cabelo de outro preto, ainda estaremos longe de ser realmente livres.

E mais: enquanto a direcção do hospital permanece calada, a injustiça ganha força. O silêncio, neste caso, não é neutralidade pois é cumplicidade. E se a dignidade humana continuar a ser medida pelo comprimento de um cabelo, então algo está seriamente doente no nosso sistema. E não é Carlitos quem precisa de tratamento.

Porque não é o cabelo que deve ser corrigido, mas as mentes.

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