OPINIÃO
As escolas e as bandeiras: quando a neutralidade fica à porta
Dizem que o Estado é laico, neutro e imparcial. Dizem que as escolas são templos do saber, onde o pensamento deve andar livre, descalço e sem bandeiras. Dizem muita coisa. Mas, neste país, o que se diz e o que se faz raramente moram na mesma casa.
Recentemente, a Organização da Juventude Moçambicana (OJM) visitou as Escolas Secundárias de Angoche para falar de drogas. Uma boa causa, sem dúvida. As drogas roubam sonhos, destroem famílias, e são um inimigo invisível que ronda as esquinas da juventude. Mas… há sempre um “mas”.
A OJM não é uma simples associação juvenil. É uma organização social do partido FRELIMO — nascida das suas entranhas, criada para lhe dar juventude e voz. Quando entra numa escola pública, mesmo que venha com boas intenções, carrega no ombro a sombra do partido que a criou. E é aí que o gesto bonito começa a ganhar um cheiro de contradição.
Porque, se a escola é pública, então é de todos.
E se é de todos, todos deveriam ter o mesmo direito de entrar — seja a juventude da RENAMO, do MDM ou da Nova Democracia. Ou então, que não entre ninguém. Porque a neutralidade não é um favor, é um dever.
Mas o país tem um vício antigo: o de confundir o Estado com o partido, a pátria com a bandeira, e o público com o privado. E assim, pouco a pouco, as escolas tornam-se palcos, as salas de aula viram plateias, e a juventude, sem perceber, passa a ser público de uma lição disfarçada.
Dizem que era uma palestra sobre drogas — mas quem sabe, talvez o vício mais perigoso não seja o da droga, mas o do poder. Esse vício que embriaga, domina e faz esquecer que governar é servir, e não mandar.
A escola devia ensinar a pensar, não a aplaudir. Devia ensinar a questionar, não a obedecer.
Porque educar é libertar, e a liberdade não tem cor, nem símbolo, nem hino.
Enquanto a bandeira de um partido tremular dentro de uma escola pública, a lição de cidadania continuará suspensa — no mesmo quadro onde se escrevem as promessas que nunca chegam à realidade.
O Estado é de todos.
Mas, às vezes, parece que só alguns têm a chave da porta.
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