OPINIÃO
ANAMALALA é pecado contra Unidade Nacional
Crónica de um país que fala, mas não se ouve
Na terra onde os rios falam em línguas antigas e os ventos sussurram nomes que não cabem nas gavetas do poder, um som foi silenciado. “Anamalala”, diziam, com boca cheia de memória. Mas o Estado respondeu com tinta seca: não pode. A sigla é local demais, tribal demais, moçambicana demais.
E assim, a sigla de um partido – Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo – foi recusada não apenas por formalidades legais, mas porque soava… Emakhuwa.
A língua mais falada do país. Mais de 7 milhões de vozes. Mas vozes que, ainda hoje, são tratadas como ruído.
O som proibido
Quem cresceu no norte sabe. Falar Emakhuwa na escola era pecado que se pagava com castigo. Nos recreios, a língua materna era esmurrada pelo português colonial, herança que a independência não lavou. Professores castigavam, colegas zombavam. E o Estado, esse, continuava a fazer ouvidos moucos. Aliás, mesmo agora, registar um filho com nome em Emakhuwa continua sendo uma luta perdida. Mas sucede o mesmo nas outras línguas? Não. Os macuas são os únicos sem apelido. São proibidos de ser Ntthupula, Mulimiha, Nakharaka, Khupula, Mpirikixa. Mas existem, Maputo fora os Cossas, os Sitois, os Mondlanes, os Mabjaias, etc.
Falar Emakhuwa era sinónimo de atraso e há quem continua a propalar esse preconceito. De “mataco”. De ser menos moçambicano. E hoje, quando um partido ousa colocar essa mesma língua no seu nome, é acusado de ameaçar a unidade nacional.
Mas o que é a unidade que não aceita as vozes do povo? E que tipo de nação teme as palavras que brotam da sua terra?
A língua, disseram-nos, é só um detalhe. Um veículo. Um código. Mas quem diz isso nunca teve a sua língua proibida. Nunca sentiu vergonha de falar com a avó diante do professor. Nunca foi corrigido por sonhar na língua errada. Porque quando a língua de um povo é marginalizada, não se está apenas a reprimir um som — está-se a amputar uma identidade.
Os que barraram o nome ANAMALALA sob o pretexto da unidade nacional talvez nunca tenham pisado a poeira vermelha de Cuamba, nem ouvido uma cerimónia de iniciação em Ribáuè. Talvez nunca tenham compreendido que a unidade não nasce do silêncio das diferenças, mas sim do seu reconhecimento, do direito de cada um ser inteiro dentro da Nação.
Querem uma pátria sem sotaques. Querem um país que pareça unido, desde que ninguém fale demasiado alto em língua “diferente”. Mas essa unidade é frágil. É fachada.
Em Moçambique, falar Emakhuwa, Xichangana, Elomwe ou Cinyanja é um acto de sobrevivência cultural. É passar a herança sem passar por Lisboa. É manter viva a raiz mesmo quando o tronco tenta ignorá-la.
A diversidade linguística não é um obstáculo à unidade. É o que torna essa unidade verdadeira. Porque a Nação não é uma ideia abstrata no papel, ela é feita de vozes concretas. E se uma dessas vozes é silenciada, então o canto da pátria sai desafinado.
Língua não é apenas palavra. É lugar. É lar. É onde o mundo começa a fazer sentido para a criança. É a voz da mãe. É o pensamento em forma de som. Negar uma língua é negar o direito de existir confortavelmente em si mesmo.
Quando o Estado diz que usar Emakhuwa numa sigla partidária ameaça a unidade nacional, o que está dizendo é: “Ser moçambicano é só até certo ponto. A tua língua não cabe aqui.”
Um país com medo de si mesmo
Por que se teme tanto uma palavra local? Talvez porque ela lembra que Moçambique não é uma construção perfeita, é um corpo com cicatrizes coloniais mal curadas, onde o português continua a ser sinónimo de poder, e as línguas nacionais são tratadas como dialetos inconvenientes.
Mas ANAMALALA acordou algo. Acordou o debate. Acordou a memória. E, sobretudo, acordou a ferida.
ANAMALALA, disseram, não respeita as iniciais. Mas há siglas piores, caladas em silêncio conveniente. E não é a primeira vez que nomes de partidos se desenham com criatividade lexical. A diferença aqui? É a língua. É a origem.
O Ministério da Justiça viu na sigla um risco. Um eco étnico. Uma ameaça à paz nacional. Mas talvez o que teme, na verdade, não seja o som da palavra, mas o lugar de onde ela vem. Das matas, das aldeias, das bocas que não pedem licença para existir.
Se queremos um Moçambique unido, precisamos começar por dar valor às vozes que o compõem. Aceitar as línguas moçambicanas não é uma ameaça à unidade, é o caminho mais legítimo para alcançá-la.
Uma sigla em Emakhuwa não divide o país. Divide, isso sim, o medo das elites de um povo que começa a reconhecer que tem o direito de se dizer, de se nomear, de existir com todas as letras, sílabas e sons da sua história. Porque a verdadeira unidade nacional não teme a diversidade, ela floresce nela. E um país que não escuta as línguas do seu povo está condenado a falar apenas com a sua sombra.
A Constituição fala de unidade, sim. Mas também promete respeitar a identidade cultural, as línguas nacionais, os direitos de todos. O que a recusa da sigla ANAMALALA mostra é uma hierarquia linguística disfarçada de legalidade. Uma Nação que se quer una, mas não plural. Que exige união, mas teme diversidade. Que bate no peito com o hino em português e tapa os ouvidos ao resto.
Se ANAMALALA divide, talvez o problema não esteja na língua, mas no olhar que a vê como divisão.
Quando as palavras têm cor
Num país onde o poder ainda se veste com terno europeu e fala com sotaque lusófono, as palavras ganham cor, e essa cor determina o lugar onde podem estar, ou de onde devem calar. As palavras do Emakhuwa não são neutras. Têm cor de barro pisado. Têm cheiro de mandioca cozida ao luar. Têm ritmo de batuque e silêncio de luto colectivo. Mas para os gabinetes da capital, essas palavras são “locais demais”, “tradicionais demais”, “étnicas demais”, como se a sua origem as tornasse menos válidas, menos políticas, menos cidadãs.
Numa democracia madura, as diferenças são acolhidas. Mas numa democracia frágil, como a nossa, ainda com os ossos coloniais mal enterrados, tudo o que foge à norma do poder é visto com desconfiança. E o Emakhuwa foge. Foge da escrita oficial, foge da imprensa central, foge dos programas televisivos em horário nobre. E quando aparece, ousado, vivo, com desejo de se afirmar num nome de partido, é imediatamente associado a divisão, conflito, tribalismo. Ninguém diz, porém, que a língua do colono também dividiu, que o português foi imposto com sangue, com régua e com castigo. E, ainda assim, tornou-se símbolo da “unidade”. Hipocrisia linguística é quando se chama “unidade” à língua dominante e “desunião” à língua marginalizada.
O que se tenta ignorar é que o Emakhuwa não é apenas vocabulário. É forma de ver o mundo, de organizar a comunidade, de cantar o nascimento, de velar a morte, de pedir chuva, de ensinar justiça sem precisar de códigos escritos. Negar-lhe espaço é mais do que rejeitar fonemas, é rejeitar uma história, uma sabedoria ancestral, uma forma de estar. É dizer, em termos simples: “Vocês até podem viver aqui, mas não podem nomear aqui.” E é isso que dói. E é isso que politiza a língua.
Moçambique gosta de falar em unidade, mas tem medo de ouvir-se em voz plural. As línguas nacionais estão presentes no povo, mas ausentes no poder. Aparecem nas danças folclóricas dos dias de cerimónia, nas campanhas de saúde pública quando é conveniente, mas somem dos boletins oficiais, das leis, dos partidos, da política nacional. É uma presença permitida, mas controlada. Uma permissão com limite. Como se as línguas tivessem hora para entrar e sair da cidadania.
Negar a sigla ANAMALALA não é apenas um gesto técnico. É um acto simbólico, e profundamente político. É dizer que certas palavras não têm o direito de aspirar ao poder. É uma forma de censura camuflada de legalismo. Porque quando o Ministério afirma que uma palavra em Emakhuwa pode dividir o país, está a declarar, sem dizer, que o país não suporta a si mesmo. Que a sua diversidade é insuportável. Que a sua própria verdade é perigosa demais para ser pronunciada com orgulho.
As palavras têm cor. A cor do lugar de onde vêm. A cor do povo que as carrega. A cor da luta que representam. E enquanto o país continuar a escolher as palavras certas pela sua “neutralidade”, continuará a negar espaço à verdade. Porque neutralidade linguística, em Moçambique, nunca existiu. O que existe é a normalização da dominação. E quando uma palavra como ANAMALALA é proibida, o que se está a dizer, nas entrelinhas da legalidade, é que o povo que a fala ainda não foi autorizado a sonhar com poder.
Mas ele já sonha. Sonha alto, em voz baixa. Sonha com a língua que lhe pertence. E não há decreto, ofício ou despacho que cale esse sonho. Porque o silêncio pode ser imposto, mas nunca eterno. E as palavras, quando têm cor, não morrem: renascem onde o Estado menos espera, na boca do povo.
O grito abafado
ANAMALALA não é só uma sigla, meu irmão. É um grito engasgado há décadas. É aquele “ehh!” que começa na garganta de quem cresceu a ouvir que a sua língua não serve, que não é língua de gente grande, que não tem lugar nos papéis com carimbo. É o som de um povo que fala, mas que o Estado finge não escutar. E é triste, maningue triste, porque quando um país começa a ter medo das palavras que vêm da sua própria terra, aí já não é só política. É negação de si mesmo.
Quantas vezes ouvimos “fala direito!”, quando alguém se expressava em Emakhuwa na escola? Quantas vezes não ouvimos “cala a boca” quando um macua quer só explicar, contar, brincar na língua dos seus ancestrais? Crescemos com isso: com a ideia de que falar português é ser “bom aluno” e que falar nossa língua é ser “matreco”. E agora, quando um partido tenta nascer com um nome que vem do coração da terra, o governo diz que isso é perigoso. Mas perigoso por quê? Será que o problema está mesmo na sigla… ou no medo do que ela representa?
Porque, vê bem, ANAMALALA mexeu com algo mais fundo. Mexeu com aquela ferida escondida atrás do discurso da “unidade nacional”. Porque nós dizemos que somos unidos, sim. Mas unidos em quê? Na língua imposta? Na exclusão disfarçada? Quando é que dissemos com todas as letras que ser moçambicano é também ser Mmakhuwa, Xitswa, Maconde, sem ter que pedir desculpa?
Esse país gosta de falar bonito sobre inclusão, mas ainda vive na prática da exclusão. Exclui no sotaque, no apelido, na pele, na forma de dizer “bom dia”. É um Moçambique que quer parecer moderno, mas tem vergonha de olhar no espelho da sua própria diversidade. E nesse espelho, meu irmão, a imagem é clara: não é a língua Emakhuwa que ameaça a unidade nacional. O que ameaça é o medo que temos de nos ouvirmos a nós mesmos, com todos os nossos sons, todos os nossos jeitos de falar, com todas as nossas verdades que não cabem num único dicionário.
Porque a unidade verdadeira não se constrói calando bocas. Constrói-se com escuta. Com respeito. Com a coragem de dar microfone àqueles que sempre foram deixados no canto da sala. A voz não mata a unidade, o que mata é o silêncio forçado.
Então vamos dizer as coisas como são: proibir ANAMALALA não é só uma questão legal. É um gesto simbólico que diz a milhões de moçambicanos que a sua forma de existir ainda está em julgamento. Que, mesmo depois de cinquenta anos de independência, a liberdade de se nomear ainda não foi conquistada por completo.
Mas essa liberdade está a chegar. Está a crescer devagar, como mandioca na chuva certa. Está nos nomes que voltamos a dar aos nossos filhos. Está nas músicas que cantamos em língua nacional sem traduzir. Está no riso que não pede licença pra ser entendido. E mesmo quando o Estado tenta abafar, a palavra reaparece, firme, na conversa da feira, na rádio comunitária, no caderno da escola onde um aluno ousa escrever: “Eu sou moçambicano. Falo Emakhuwa. E não sou menos por isso.”
O grito abafado está só à espera do momento certo para se tornar canto. E quando esse canto ecoar, ninguém mais vai poder dizer que nos unimos calando, vamos mostrar que a nossa verdadeira unidade está em falarmos todos, cada um com a sua voz, e ainda assim, caminharmos juntos.
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