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OPINIÃO

A negligência e a impunidade matam todos os dias

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Todos os dias abrimos os jornais ou ligamos a rádio e já sabemos: mais um acidente nas estradas, mais vidas perdidas. Homens, mulheres, crianças… famílias inteiras destruídas. Até quando vamos aceitar esta situação como normal?

Nos países sérios, quando acidentes assim acontecem, há responsabilização. Um ministro se levanta, pede desculpas ao povo e apresenta a sua demissão. Ele sabe que não dirigia o carro, mas entende que, sendo responsável, deve assumir a culpa moral e política. Aqui em Moçambique, acontece o contrário. Quando morre gente nas estradas, ninguém cai. Nenhum ministro assume, ninguém se envergonha. O silêncio é a resposta oficial. As famílias choram sozinhas. Os feridos sofrem sozinhos. E os responsáveis seguem em seus gabinetes, como se nada tivesse acontecido.

E não se trata apenas de acidentes isolados. É um padrão. Quantas vezes ouvimos falar de estradas mal conservadas, veículos sem manutenção, motoristas apressados, crianças e trabalhadores transportados em condições perigosas? E o que acontece? Nada. Alguns dizem que é culpa dos motoristas, outros apontam para a má sorte, mas a verdade é certa: a negligência e a impunidade matam todos os dias.

Enquanto isso, o mesmo país aplaude quando uma empresa ligada a um ministro ganha um concurso público milionário. É curioso como a vida humana não gera responsabilidade, mas o lucro e o poder geram aplausos silenciosos. Onde deveria haver vergonha, há normalização. Onde deveria haver investigação, há silêncio. É isso que nos diferencia dos países sérios: lá fora, vidas valem mais que cargos; aqui dentro, cargos valem mais que vidas.

O povo sente. Todos sentimos. A senhora do mercado sente. O jovem que conduz o chapa sente. O camponês que trabalha de sol a sol sente. A diferença é que muitos ainda não ousam gritar alto o suficiente. Mas é impossível ficar calado diante do absurdo: estradas inseguras, hospitais sem condições, escolas sem livros, governantes enriquecendo com o dinheiro do Estado, e nós continuamos a sofrer.

A cada acidente, vemos cenas que ninguém deveria presenciar. Crianças feridas chorando por socorro, pais desesperados tentando salvar filhos, famílias que perderam tudo em segundos. E o que os responsáveis fazem? Comunicados frios, promessas vazias, desculpas formais. Nada muda. O país continua a andar para trás, enquanto alguns se aproveitam do silêncio e da dor alheia para enriquecer.

É preciso dizer as coisas como são: este país não avança porque a vergonha não existe entre quem governa. Não há medo de perder cargo ou prestígio. Não há respeito pela vida. E enquanto o povo se acostumar com isso, os acidentes continuarão a matar, as empresas continuarão a ganhar concursos suspeitos, e o Estado continuará a servir a interesses próprios em vez de proteger a população.

Moçambique precisa acordar. Precisamos olhar para cada acidente como um alerta, cada vida perdida como uma chamada de atenção, cada injustiça como um desafio que exige ação. É hora de exigir responsabilidade, de exigir justiça, de exigir que a vida humana seja valorizada acima de qualquer negócio ou interesse político.

O povo sabe. O povo sente. O povo sofre. Mas também pode reagir. É hora de deixar de aceitar o silêncio como resposta. É hora de exigir que quem tem poder se lembre de que o cargo existe para proteger vidas, não para enriquecer e se eximir da responsabilidade.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos a enterrar vítimas, a chorar injustiças, e a viver num país onde a vergonha nunca chega.

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