OPINIÃO
A juventude que devia sonhar em transformar a pátria sonha, na verdade, em fugir dela
Diz-se que a juventude é o futuro de uma nação. É um refrão repetido em discursos políticos, sermões religiosos e até nas conversas nos bairros. Mas, olhando para a realidade que nos cerca, é legítimo perguntar: de que futuro estamos a falar, quando a maior parte dos jovens não sonha em construir a pátria, mas sim em abandoná-la?
As razões são muitas e não podem ser reduzidas a uma única narrativa. O jovem de hoje nasce com um bilhete de identidade marcado pela frustração. Cresce numa escola que lhe promete horizontes, mas o entrega à mediocridade. Sonha com emprego, mas encontra portas trancadas ou abertas apenas para quem tem padrinhos poderosos. Tenta acreditar no mérito, mas descobre que a sua qualificação não pesa nada diante do peso de um sobrenome influente ou de um envelope discreto deslizado debaixo da mesa.
Assim, a pátria que devia ser espaço de inspiração torna-se prisão de esperanças. O jovem olha para o cenário político e vê um teatro repetitivo, onde os atores mudam de roupas mas mantêm o mesmo enredo. Vê líderes que pedem sacrifício, mas vivem rodeados de privilégios. Vê governos que proclamam progresso, mas cujas estatísticas de desemprego, desnutrição e pobreza o contradizem dia após dia.
Nesse ambiente, como pedir ao jovem que sonhe em transformar o país? O sonho requer fé. E a fé nasce da confiança de que o esforço não será em vão. O problema é que, entre nós, a fé cívica foi corroída. O jovem não acredita mais que a sua pátria o quer. Não acredita que há espaço para ele fora da marginalidade ou do clientelismo. Por isso, sonha em partir. O destino pode ser Lisboa, Joanesburgo, Toronto ou até mesmo uma embarcação clandestina no Mediterrâneo. Pouco importa. O essencial é sair, escapar, respirar longe do peso sufocante de uma pátria que lhe cobra amor mas não lhe oferece dignidade.
É claro que fugir não é solução. Mas também não é justo culpar a juventude por esse desejo. Sonhar em deixar o país é uma forma de sobrevivência psíquica. É o grito de uma geração que já não acredita nos discursos patrióticos, porque nunca viu esses discursos se materializarem em pão, em livros, em oportunidades. A fuga, nesse caso, é menos covardia e mais autodefesa.
O paradoxo é o mesmo país que precisa da juventude para se reinventar é o país que a expulsa simbolicamente todos os dias. Expulsa quando fecha portas à inovação, quando criminaliza a crítica, quando marginaliza o talento, quando transforma a criatividade em subversão. Expulsa quando os jovens são assassinados pela miséria, pelo desemprego, pela droga e pela desesperança.
A pátria não melhora sem aqueles que têm energia, vitalidade e ousadia para transformá-la. Mas como convencer uma juventude a ficar, se o próprio Estado não lhe dá razões para permanecer?
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