OPINIÃO
A festa dos ratos no barco da salvação
O rio quando sobe é bruto, mas ele não mente. Ele avisa que vem, molha a casa, estraga os móveis e vai embora deixando lama. Mas a lama que o rio deixa, a gente limpa com mangueira e vassoura. O problema é a “lama” que fica dentro de certos gabinetes, a lama do dirigente que vê o povo a sofrer e só pensa em como vai lucrar com isso.
É preciso ter uma coragem muito feia para olhar para um camião cheio de arroz, bolacha ou mantas, coisas que foram dadas por gente que se sacrificou para ajudar e o dirigente a pensar: “Vou tirar dois ou três sacos para vender na minha banca” ou “Vou guardar isto para os meus amigos”.
Quem faz isso não é apenas um ladrão comum. O ladrão comum rouba quem tem alguma coisa. O dirigente que desvia donativos rouba quem já perdeu tudo. Rouba a mãe que está num centro de acolhimento sem saber o que vai dar ao filho à noite.
Rouba o pai que viu a sua machamba ser engolida pela água e agora depende daquela ajuda para recomeçar.
Rouba a confiança de quem doou, fazendo com que as pessoas fiquem com medo de ajudar na próxima vez.
É uma inteligência usada para o mal. Esses dirigentes sabem que, no meio da confusão das cheias, é fácil esconder um papel, alterar uma lista ou fingir que o camião nunca chegou. Eles aproveitam-se do barulho da chuva para fazer o silêncio do crime. Se analisarmos com rigor, o desvio de ajuda humanitária em Moçambique ou em qualquer lugar onde o Estado se torna predador de si mesmo, revela uma falência ontológica. O dirigente que desvia o arroz, a tenda ou o kit de higiene não está apenas a roubar um objeto. ele está a sequestrar o tempo de recuperação de uma nação. Cada saco de cereal vendido por fora é um dia a mais que uma criança passará num centro de acomodação, dormindo sobre o relento da incerteza.
A inteligência do crime de colarinho branco em contextos de emergência é oportunista. Eles sabem que, no caos, a fiscalização é turva como a água das cheias. Mas há uma miopia estratégica nessa ganância. ao depauperar a base que sustenta a estrutura social, o dirigente corrói o próprio chão onde pisa. É a “Síndrome de Cronos”, que devora os seus próprios filhos para manter um poder que, no fim, estará cercado por um deserto de gente sem nada.
A verdade é uma só: não há ciclone ou cheia que destrua mais um país do que a falta de vergonha de quem deveria cuidar do povo. Ver um administrador ou um
funcionário ser preso porque tirou a comida da boca de quem está molhado e com fome é a prova de que, para alguns, a barriga cheia deles vale mais do que a vida de milhares.
O rio vai baixar, o sol vai sair e as casas vão ser reconstruídas. Mas o nome desses que desviaram ajuda ficará para sempre manchado. Porque o povo pode perdoar a força da natureza, mas nunca vai esquecer a traição de quem usou a sua dor para encher o bolso.
É necessário entender que o desvio não é apenas corrupção, é sabotagem civilizacional. Enquanto o cidadão tenta salvar o que resta da sua dignidade da lama, o dirigente limpo e engravatado opera uma transferência de riqueza da tragédia para o privilégio. No xadrez desta exploração, o povo é sacrificado como um peão descartável para que o rei mantenha a sua opulência à custa de donativos que cheiram a suor e esperança.
A verdadeira enchente que Moçambique precisa combater não é a do Limpopo ou do Incomáti, mas a do egoísmo sistémico. Porque, enquanto a água baixa com as estações, o cinismo de quem governa para si mesmo tende a ser perene. A justiça não pode ser apenas um tribunal de papel; ela precisa de ser a barragem que impede que o auxílio se perca nos labirintos da má-fé.
Sem ética na emergência, o Estado não é um abrigo; é apenas mais uma força da natureza contra a qual o cidadão tem de aprender a nadar.
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