OPINIÃO
O Preço da gratuidade
Há coisas que uma sociedade só pode fazer quando perde o espelho da consciência. E uma delas é esta tendência assustadora, quase festiva, de promover o aborto como se fosse um avanço civilizacional. Chegámos ao cúmulo de anunciar, com orgulho e fanfarras, que o aborto é gratuito nos hospitais como se estivéssemos a falar de uma vacina ou de um curativo.
“aborto gratuito”. Essa frase da forma como é proclamada, parece até um favor público, um presente do Estado para a mulher moderna, como se a gratuidade transformasse o ato em algo simples, inofensivo, higiénico. Como se a dor tivesse preço. Como se a consciência não existisse. Como se a vida aquela pequena vida que cresce em silêncio fosse apenas um detalhe incômodo que a modernidade se encarrega de eliminar.
Esta promoção do aborto não é apenas uma política de saúde; é um projeto ideológico. Há um esforço nítido, quase agressivo, de normalizar aquilo que, por natureza, jamais será normal. E fazem isso com um requinte de propaganda que chega a ser irresponsável: slogans sobre “direitos reprodutivos”, cartazes coloridos, discursos emocionados sobre empoderamento enquanto escondem, nos bastidores, o silencioso das mulheres que nunca mais foram as mesmas depois de atravessar aquela porta. Porque ninguém sai igual
O discurso bonito diz que o aborto é uma escolha. Mas esquecem-se de explicar a que custo essa escolha é feita. Esquecem-se de dizer que a maioria das mulheres que aborta não o faz por liberdade faz por desespero, abandono, medo, pressão, solidão. Esquecem-se de dizer que “gratuito” não significa indolor. Que “seguro” não significa sem marcas. Que “direito” não significa felicidade.
Mas o Estado não quer saber disso. A nova narrativa é resolver a gravidez indesejada com um procedimento rápido, barato e silencioso. Mais fácil do que investir em educação sexual séria. Mais conveniente do que responsabilizar pais que fogem das suas responsabilidades. Mais barato do que apoiar maternidades vulneráveis.
Afinal, prevenir exige trabalho. Abortar exige apenas uma assinatura. E assim, empurram as mulheres para o corredor mais escuro, enquanto anunciam, com um sorriso civilizado: “está aqui a sua solução e nem precisa pagar”. Como se aquilo que está em causa fosse um simples serviço hospitalar e não a interrupção de uma vida humana em formação. Como se a gratuidade apagasse qualquer peso moral, espiritual, psicológico. Como se o Estado estivesse a oferecer um comprimido.
É perverso. Mais perverso ainda é ver como esta promoção massificada transforma a vida num inconveniente. Em vez de cercar a mulher com apoio real psicológico, social, económico cercam-na com a narrativa de que abortar é um ato de autonomia. Que é moderno. Que é normal. Que é até recomendado. E se ela hesitar, lá está a placa na parede: “procedimento gratuito”.É quase uma sedução institucional.
Mas ninguém fala da noite que vem depois. Ninguém fala do silêncio que acompanha. Ninguém fala do vazio que se instala quando a porta do hospital se fecha e a mulher volta para casa com uma escolta invisível chamada culpa. Ninguém fala dos anos seguintes, quando a mente insiste em refazer o cenário que o mundo mandou esquecer.
E não é preciso religião para reconhecer isso. Basta humanidade.Promover o aborto como política de rotina é confessar que falhámos enquanto sociedade. Que não fomos capazes de proteger as mulheres antes que chegassem a esse extremo. Que escolhemos o atalho mais cruel e mais barato. Que preferimos apagar a consequência em vez de enfrentar a causa.
A vida deixou de ser valor; virou variável. A maternidade deixou de ser missão; virou problema. E o aborto deixou de ser última alternativa; virou produto gratuito.
E quando uma sociedade passa a tratar a vida assim como uma coisa descartável, negociável, administrável perde algo essencial: perde a alma. Perde o respeito pelo mistério da existência. Perde a capacidade de reconhecer que, por trás de cada gravidez difícil, há uma mulher que merece ser levantada, não empurrada ao abismo com o tapete dourado da “gratuidade”.
Promover o aborto gratuito não é progresso. Progresso seria reduzir o número de mulheres que chegam a este ponto. Progresso seria prevenir, educar, amparar, responsabilizar, valorizar. Progresso seria colocar a vida toda a vida no centro das políticas públicas.
O resto é apenas maquiagem ideológica aplicada sobre uma ferida aberta. Uma ferida que continua a sangrar, mesmo quando o Estado insiste em dizer que o curativo é gratuito.
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