ECONOMIA
Desinformação e fome estiveram na origem da invasão dos armazéns do INGD em Muecate
Depois de um longo silêncio sobre o caso, o Secretário de Estado da Província de Nampula, Plácido Nerino Pereira, reconheceu falhas de comunicação que estiveram na origem da invasão dos armazéns do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), em Muecate, a 16 de Outubro, episódio que resultou em um morto e três feridos.
Segundo o governante, o incidente foi provocado por desinformação e frustração social, tendo sido esclarecido durante o encerramento da sua visita de trabalho ao distrito, na semana passada.
De acordo com Pereira, a assistência alimentar fazia parte de um programa conjunto entre o Governo e o Banco Mundial, concebido para apoiar os agregados familiares mais carenciados, severamente atingidos por calamidades naturais. “Esta ajuda não era para todos os cidadãos, mas sim para os mais afetados. Infelizmente, a ideia de que os alimentos deviam ser distribuídos a toda a população gerou confusão e movimentação em massa”, explicou.
A situação agravou-se quando começaram a circular rumores de que, no gabinete do administrador distrital, havia “dinheiro do FDEL guardado em baldes”, o que levou centenas de pessoas a dirigirem-se ao local. “A Polícia teve de intervir para dispersar a multidão e, durante os disparos de advertência, uma das balas acabou atingindo cidadãos inocentes, causando uma morte e três feridos”, detalhou o Secretário de Estado, lamentando o desfecho trágico.
Pereira garantiu que a Polícia abriu uma investigação interna para apurar responsabilidades e avaliar o cumprimento dos procedimentos operacionais durante a intervenção. Sublinhou, contudo, que “em situações de agitação popular é comum pequenos grupos agitarem as multidões, gerando movimentos incontroláveis”.
Após o incidente, os poucos alimentos remanescentes foram colocados ao ar livre, para que a população os recolhesse livremente, numa tentativa de mostrar transparência na gestão dos donativos. O governante reconheceu, porém, que “faltou um trabalho de sensibilização prévio, tanto das autoridades locais como das estruturas comunitárias”, o que teria evitado mal-entendidos e comportamentos violentos.
Plácido Pereira alertou ainda que a ajuda alimentar internacional está a diminuir, em virtude da redução dos fundos da USAID e do aumento das crises humanitárias globais. “As Nações Unidas têm hoje de atender situações mais graves noutros países, e isso obriga Moçambique a encontrar respostas internas. Não podemos continuar a depender da assistência internacional”, advertiu.
A fonte informou que o Governo da Província de Nampula confirmou a abertura de uma investigação interna pela Polícia da República de Moçambique (PRM) para apurar as circunstâncias da morte e dos ferimentos registados durante os tumultos de 16 de Outubro em Muecate. Segundo o Secretário de Estado, Plácido Nerino Pereira, o inquérito visa determinar se houve excesso no uso da força e assegurar que sejam tomadas as medidas disciplinares necessárias. “A Polícia rege-se por normas próprias. Há uma informação interna que é feita e há investigação interna que é feita para depois tomarem-se as medidas necessárias, caso haja medidas necessárias”, explicou o governante.
Paralelamente, o Executivo provincial garantiu que as vítimas receberam assistência médica imediata e que as autoridades locais, em coordenação com o Serviço Distrital de Saúde e o INGD, estão a acompanhar as famílias afetadas. Pereira sublinhou que o Governo está a rever os mecanismos de distribuição de ajuda alimentar e a reforçar o trabalho de sensibilização comunitária, para evitar que desinformações semelhantes voltem a causar tragédias. Faizal Raimo
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